(IN)Feliz Ano Novo


Perdoem-me os otimistas de plantão, os puros de coração, mas neste começo de ano, o sentimento que em mim prevaleceu foi o de repulsa. Pois é, nada de amor incondicional, desejo de paz e saúde, dinheiro e felicidade. Pensar nos milhões de pessoas famintas no mundo inteiro? Nas mortes no trânsito? Na festa à beira-mar? Nada disso. Só consegui pensar na dor, na fome e na exclusão dos animais de todo e qualquer ritual de passagem para uma vida melhor que o ser humano ingenuamente insiste em praticar. Claro que tentei. Tentei responder as mensagens de feliz ano novo com outro feliz ano novo. Mas realmente não consegui. No máximo desejei um ‘prá ti também’ meio sem graça, sem convicção, sem certeza de que era isso mesmo que eu queria. Claro que houve raras exceções, onde a mensagem foi sincera, retribuída com franqueza. Mas tragicamente por serem raras, nestas, todas as vidas são consideradas importantes e o ano entrar com paz e justiça para todos os seres sem exceção.

Em meio à vontade de tentar ser normal junto aos anormais, só consegui sentir uma tristeza imensa ao sentir o cheiro de carne queimada em cada esquina por onde passei, ao ver faixas de um pano branco barato com letras gigantes, vermelhas, sangrentas, gritantes “Temos Porco Assado”. Restaurantes famosos anunciando a ceia da fartura. Mas que fartura? Se comer porco assado trouxesse fortuna então milhões de pessoas que vivem nas periferias estariam junto com os milhares que moram nos condomínios de classe média e têm o sonho de viver nos de luxo. Todas as pessoas que conheço e que fazem desse ritual macabro de fim de ano para uma perspectiva de vida melhor ainda vivem do mesmo jeito que viviam há vinte anos. Então o que faz o ser humano ser tão equivocado nas suas escolhas? Só a ignorância e a falta de informação do que realmente estão devorando? Na ilusão de ganharem mais dinheiro no ano que vem vale tudo? Como esperam ser felizes na família se dilaceram outra família? Como esperam ganhar mais conforto se destroem e levam dor a seres que só querem viver e que nenhum mal fazem? Ou pensam eles que porcos ou perus não têm família, não sentem dor? O que falta para que a maioria dos seres humanos pare de infligir tanto sofrimento aos animais? O que falta falar ou mostrar para que sintam vergonha do que põem na mesa para festejar um feliz ano novo?

Perdoem os bons de coração, os que ainda acreditam numa mudança pacífica na relação entre homens e animais. Eu não consigo mais. Não consigo mais ter ternura. Tudo que vejo são máscaras que escondem os sentimentos mais mesquinhos, mais macabros, mais cruéis e egoístas de uma espécie que se diz inteligente, mas que é incompetente para sobreviver um simples dia sem massacrar um animal. Hoje passei e vi homens ávidos, apressados, levando corpos de animais cravados num espeto para festejar o ano novo em família. Suas mulheres sorridentes, filhos contentes. Não consegui evitar o pensamento de como eles são pequenos, até ridículos na sua besta felicidade momentânea. Tão poderosos em suas famílias, seus empregos, suas empresas, mas tão infelizes sem saber, sem saber cuidar de si e dos seus por si próprios, por seu valor, por sua luta, por seu suor e própria dor. Sem saber sobreviver em pleno século XXI sem ter de matar, torturar, literalmente assar outro ser vivo. Perdoem os dóceis de plantão, mas não encontro motivos para desejar feliz ano novo para a maioria das pessoas. Só consigo sentir repulsa pelos hábitos da maioria, pelo seu estilo de vida. Feliz ano novo para a maioria dos seres humanos significa para mim muita infelicidade, massacre e sacrifício de seres inocentes.

  

Cleila Maria Fochesato Sartor, Psicóloga, bacharel em Direito e em Serviço Social e pós-graduada em Ética e Filosofia Política.


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