Joaquim Nabuco e a escravidão no Brasil


Por Heron José de Santana

Para Joaquim Nabuco, a escravidão provocou profundas feridas na nacionalidade brasileira, deixando sequelas que até hoje refletem em nossa ordem econômica, política e cultural.

Vindos da metrópole, prisioneiros, deserdados, “mulheres erradas”  e tudo mais de ruim que por lá havia chegaram por aqui sem nenhum projeto deliberado de construir uma nação.

A exploração sexual das negras e das índias não contribuiu em nada para a criação de uma “família ou nação brasileira”, uma vez que os filhos dessas relações não integravam a família, e muitas vezes eram vendidos pelos próprios pais como escravos. 

Explorado, não remunerado e afastado arbitrariamente de sua família, o escravo trabalhava sem empenho ou criatividade, usando a terra em regime de monocultura apenas para a satisfação imediata dos escravocratas, extenuando-a e não permitindo a sua recuperação.

Após desmatar e exaurir a terra, o escravocrata migrava para terras cada vez mais distantes para evitar a fuga dos cativos, enquanto o lucro e as riquezas conquistadas por meio do trabalho escravo iam ser gastos nas capitais e exterior.

É que a escravidão criou três categorias no Brasil: os não brasileiros (escravos), os semibrasileiros (filhos do senhor com as escravas e os filhos dos próprios mestiços) e os brasileiros (descendentes diretos dos portugueses), e este talvez seja o principal fator impeditivo do desenvolvimento de um ideal coletivo de nação e de uma identidade nacional.

Se o conceito de nação em alguns países está relacionado à raça, religião ou território, em um país escravagista como o nosso restou apenas um fosso de desigualdade e anomia social, já que até hoje grande parte da população permanece desprovida de educação, ostentando índices vergonhosos de desenvolvimento humano.

Além da família, o regime escravocata desvalorizou outro elemento muito  importante para o desenvolvimento de uma nacionalidade: o instituto do trabalho, que no Brasil ficou associado aos conceitos de opressão e exploração.

De fato, o escravo trabalhava sem liberdade ou qualquer perspectiva de crescimento, enquanto o escravocata vivia do trabalho alheio, ao passo que os mestiços também desvalorizavam o trabalho e preferiam viver de favores, uma vez que o trabalho podia associá-los aos escravos.

Não tivesse o Brasil permanecido atado durante mais de quatro séculos ao instituto da escravidão, uma mão de obra livre e assalariada já teria ultrapassado, há muito tempo, o modelo de monocultura de exportação e desenvolvido os setores secundário e terciário da nossa economia, especialmente no Norte e Nordeste brasileiros.

Infelizmente, como herança maldita, a escravidão nos legou elevados índices de violência, corrupção, clientelismo, nepotismo, coronelismo e individualismo, e como consequência disso tudo a adulação e o servilismo se tornaram a principal moeda de troca social, estabelecendo enormes barreiras à ascensão social da população por meio do esforço e mérito próprios.


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