Cientistas inundam terrenos para salvar espécies em extinção


O pedido soou estranho para Dave Hedlin, fazendeiro do fértil Skagit Valley, no Estado de americano de Washington: conservacionistas solicitaram que ele inundasse seus campos voluntariamente. “A maioria de nós passou a vida inteira tentando deixar as terras livres da água”, disse Hedlin, cuja propriedade está aconchegada entre recessos, baías e estuários, sob a sombra do Monte Baker, um vulcão coberto de neve.

Contudo, Hedlin decidiu fazer parte de um projeto piloto conduzido pela ONG americana Nature Conservancy, que inunda temporariamente áreas agrícolas para restaurar o habitat de aves costeiras. As inundações seriam parte do sistema regular de rotação de culturas da fazenda, e, em teoria, se “autopagariam” por encher as terras de fertilizantes naturais, afogando bactérias patogênicas do solo e aumentando a safra.

Em contrapartida, as áreas inundadas se tornariam novamente refúgio e ponto de abastecimento para as aves costeiras migratórias no caminho entre seus locais de reprodução no Ártico e seus refúgios de inverno no sul.

Dentre as 53 espécies de aves costeiras que se reproduzem na América do Norte, mais da metade corre risco grave, de acordo com o Plano de Conservação de Aves Costeiras dos Estados Unidos, um programa gerido por uma coalizão de organizações públicas e privadas. Após três anos, os resultados primários sugerem que o projeto está dando certo: 15 espécies de aves costeiras retornaram às áreas úmidas restauradas.

Até o momento, três fazendeiros participantes estão contentes com o experimento, incluindo Hedlin, que disse não ter sofrido nenhum dano financeiro com a iniciativa.
Mudança nas Marés

Antes de o vale ser convertido em local agrícola no início do século XX, seus pantanais abundavam em crustáceos, peixes e insetos. Porém, desde que as áreas alagáveis se tornaram fazendas, a maior parte dos quase 50 mil pássaros que visitam o local anualmente passou a se alimentar nos estuários próximos.

“Nós alteramos completamente a paisagem”, declarou Julie Morse, ecologista da Nature Conservancy em Mount Vermon, também localizado no Skagit Valley.

“O ecossistema costumava ser influenciado pelas marés, mas a região funciona, hoje, de modo muito semelhante a um sistema de diques, e não há mais áreas alagáveis como antes”.

O projeto no Skagit Valley foi moldado com base na ideia de “terras alagáveis itinerantes”, criada em Klamath Basin, sul do Estado do Oregon e norte da Califórnia, locais onde refúgios de vida selvagem são inseridos em um sistema de rotação de terras alagáveis.

Laura Payne, ecologista especializada em vida selvagem da Universidade de Washington, em Seattle, chamou o projeto de uma colaboração inovadora entre fazendeiros e conservacionistas. “Essa ideia tem potencial para ampla aplicação e eu acredito que seja absolutamente relevante”, disse Payne.

Se o projeto for bem sucedido, a Nature Conservancy planeja reaplicar o conceito de áreas alagáveis itinerantes por todo o caminho de migração dos pássaros costeiros, que se estende do Ártico para a América Central e América do Sul.

“A perda de áreas alagáveis em regiões costeiras devido à difusão da agricultura vem ocorrendo no mundo inteiro, de modo que nossa proposta poderia ser adaptada em qualquer lugar”, sustentou Morse, da Nature Conservancy.

Áreas inundáveis temporárias

Os três fazendeiros do Skagit Valley, incluindo Hedlin, que se inscreveram para participar do projeto também ajudaram a moldá-lo. “Inicialmente, eles nos pediram conselhos, em vez de nos dizer o que eles queriam fazer”, disse Hedlin.

A equipe traçou um plano para inundar campos selecionados com uma fina camada de água, não superior a dez centímetros, o nível ideal para aves costeiras durante três anos. Os lotes ficaram inundados durante todo o experimento.

A inundação dos campos exigiu que os fazendeiros construíssem barreias para evitar que a água chegasse até as terras dos vizinhos.

Resultados Iniciais

Os resultados preliminares obtidos nos primeiros três anos do projeto sugerem seu sucesso parcial. No primeiro ano, 15 espécies de aves costeiras utilizaram os campos alagados e somente duas espécies usaram as áreas de pastagem e feno para um possível benefício ecológico das parcelas inundadas.

A equipe da Nature Conservancy não tem nenhuma informação sobre quantas espécies de aves costeiras visitaram, historicamente, as regiões alagáveis, disse Morse, e somente cerca de três espécies foram avistadas após a conversão da área para a agricultura. Desse modo, “a equipe ficou satisfeita ao ver 15 espécies retornarem”, declarou Morse.

Entretanto, no segundo ano do experimento, as plantas tifáceas que cresceram nas áreas alagadas atingiram mais de 5 metros de altura, o que dificultou a navegação das aves costeiras. Naquele ano, somente oito espécies de pássaro visitaram o local.

“É bem impressionante você deixar o curso da natureza livre e ela retornar ao seu estado nativo tão rapidamente”, afirmou Morse. Os conservacionistas estão analisando planos para administrar ativamente os campos alagados a fim mantê-los preparados para as aves costeiras.

Benefício Financeiro

Os fazendeiros também enxergaram um benefício financeiro na proposta: os níveis de nitrogênio nos campos inundados subiram em média 57,5 kg/hectare, o que significa que os fazendeiros devem ter gastado menos dinheiro com fertilizantes.

Hedlin, o fazendeiro, disse que usou a inundação de três anos para realizar a transição de seus campos para a agricultura orgânica, já que os campos precisam permanecer como terras de pousio durante três anos para receberem a certificação orgânica.

“Tivemos uma experiência positiva e não retrocedemos financeiramente”, ele afirmou. Morse, da Nature Conservancy, está agora comparando quanto dinheiro é ganho nos terrenos alagados em comparação às áreas de pastagem e feno.

“A principal coisa que estamos fazendo, e que não foi feita em Klamath, é tentar realmente quantificar quanto valor essa técnica agrega para os fazendeiros e quanto habitat para aves costeiras ela proporciona”, declarou Morse.

“E também estamos comparando os benefícios ecológicos destes três tipos de habitat””, acrescentou.

Elos em uma cadeia

Mark Colwell, biólogo especializado em vida silvestre na Universidade do Estado de Humboldt em Arcata, Califórnia, elogiou as inovações do projeto.

“Mas ajudar as aves migratórias a retornar não é fácil”, disse Colwell. Habitats como o Skagit Valley e Klamath Basin podem ser pensados como elos em uma cadeia ao longo da trajetória migratória dos pássaros. “Você pode fazer coisas em vários pontos de conexão da cadeia na ida e na volta do fluxo migratório, mas se em algum ponto existir um sério problema, bem, toda a população pode despencar”.

Apesar disso, acrescentou, uma quantidade suficiente desses projetos espalhada ao longo da trajetória migratória poderia ajudar os pássaros a encontrar alimento suficiente durante o percurso de suas migrações anuais.

Payne, da Universidade de Washington, observou que as aves costeiras migratórias são oportunistas, particularmente no curso de revoadas em locais onde as condições das terras alagáveis são imprevisíveis. “Elas sabem reconhecer um bom habitat quando o avistam, por exemplo uma área que é normalmente seca mas que é inundada num ano particularmente chuvoso”, afirmou Payne.

“Habitats alternativos, tais como as áreas temporariamente alagadas, se adequam bem às necessidades” desse grupo de espécies, declarou ela.

Fonte: Terra


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