Por Renan Vicente de Andrade (da Redação)

Foto por Kirk McKoy / Los Angeles Times
Foto por Kirk McKoy / Los Angeles Times. Jaqueta Vaute Coat e vestido Stella McCartney.

Os veganos não comem, nem usam nada que provenha de animais.  Mas só porque são veganos não quer dizer que não andam na moda – e sim que são mais seletivos. Se um animal foi machucado para fazer um material  usado na vestimenta, este produto não é ético. Vestir couro nem pensar. Tampouco a lã das ovelhas ou a seda, que requer a morte do bicho para se obter o fio. E também não, obviamente, para peles e roupas com pelo e penas.

Por anos, usando nobuck vegano da marca Birkenstocks e vestidos de cânhamo (fibra obtida da planta Cannabis) ou camisetas com slogans do tipo “Eu amo vacas”.  As opções eram limitadas, especialmente para calçados, acessórios e roupas para o frio. Mas graças à uma crescente produção de linhas de roupas – que permitem as pessoas estilosas e conscientes a unirem seus gostos particulares com suas crenças de “não à crueldade” – agora é possível desafiar o estereótipo da Berkeley. Vegano e na moda ? Não são mais termos díspares.

“Eu não queria ser a marca que somente hippies vestem”, disse Elizabeth Olsen, fundadora da “olsenHaus Pure Vegan footwear” marca de calçados veganos criada em Nova York. A olsenHaus, que está funcionando há um ano, faz diversos calçados com uma mistura de materiais reciclados e de origem vegetal. Estes são sapatos que poderiam facilmente caminhar no tapete vermelho e fazer com que sobrancelhas levantem.

Olsen, 36, é vegetariana desde os 15 anos de idade e viu alguns textos do PETA sobre animais em fazendas industriais e testes em animais que a enfureceram. “Ela era a diretora de criação da Tommy Hilfinger até ela decidir entrar na causa vegana com uma linha de calçados que preencheu o espaço entre solas de poliuterano sem estilo da Payless ShoeSource e os saltos de 800 dólares da Stella McCartney, a mais conceituada designer vegana.

“Nós tentamos mostrar para as pessoas que você pode estar realmente na moda, com estilo, e não vestir animais”, diz Jackie Horrick, dona da Alternative Outfiters, boutique vegana de Pasadena. ” Nós não custamos caro… pois é isso o que as pessoas pensam quando ouvem falar em vegano”.

Como uma rápida olhada na loja sugere, a aparência da pequena boutique é bem urbana, com suas elegantes jaquetas, sandálias com solas de rolha, bolsas de couro sintético e camisetas com mensagens do tipo “Eu como carboidratos” e “Mulheres de verdade vestem pele sintética”.

Aquelas vestimentas de pele sintética, aliás, são bonitas e sofisticadas e custam muito menos; os preços na Alternative Outfitters são, geralmente, menos que 100 dólares por item, com sapatos que custam em média 45 dólares e camisetas que custam em média 20 dólares.

“Estive tentando cada vez mais aderir à ideia de me vestir da maneira ‘cruelty-free’ (sem crueldade, em tradução livre)”, disse a psicoterapeuta Miller, 40, que estava fazendo compras na Alternative Outfitters pela primeira vez. Ela foi vegetariana por 15 anos antes de virar vegana, no verão passado.

“Por que vestir algo que provém de um animal quando eu posso usar outras coisas ?”, disse  Miller, que estava procurando um cinto. “As pessoas dizem, ‘Bem, o animal já está morto e você só está usando o couro, então qual a diferença?’ Você vota com seus dólares. Quando você compra alguma coisa que vem de um animal – um animal que viveu em cativeiro e sofreu quando morreu – você está dizendo implicitamente que está certo matá-los”.

Os amigos veganos de Miller são uma pequena, mas influente comunidade. De acordo com um estudo publicado em 2008 pela Vegetarian Times, 7,3 milhões de americanos são vegetarianos; dos quais, apenas 1% é vegano. Mas a ética dos veganos está encontrando tração na tendência dominante, pois o veganismo coincide com o ambientalismo, o qual se tornou um tema culturalmente importante nos últimos anos. Quase metade dos vegetarianos que votaram na enquete da Vegetarian Times dizem ter aderido à dieta devido às causas ambientais. (De acordo com um anúncio feito em 2006 pela ONU, a pecuária produz mais gases poluentes que a indústria automobilística.)

“Pessoas que estão realmente preocupadas com o meio-ambiente acabam por entrar na comunidade dos defensores de direitos dos animais. Ser vegetariano faz com que a quantidade de poluição que temos diminua. Alguns dos produtos que apoiamos, como o algodão orgânico, não polui”, diz Melanie Packer, uma das donas da boutique vegana Humanitaire em Costa Mesa, que vende tênis para esporte da Macbeth, saltos de luxo da Neuaura, camisetas da Herbivore e bolsas da Matt & Nat que têm como público alvo “de crianças até senhoras com o cabelo azul”.

Na Matt & Nat, uma produtora de acessórios socialmente responsável de Montreal, algumas partes das carteiras e bolsas para notebooks de “couro vegano” são feitas de garrafões de água reciclados.

Mas para Inder Bedi, fundador e diretor de criação da Matt & Nat, o estilo é a chave. “O produto/design tem de estar lá primeiro. No fim do dia, quando aquilo está feito, as pessoas compram primeiro o produto e depois o andar todo”.

E este impulso está ajudando o estilo vegano a avançar. “A nova aparência da moda vegana não difere em nada de qualquer outra moda”, disse Rachel Sarnoff, fundadora e dona do EcoStiletto, um website (ecostiletto.com) que promete liberar “os segredos de uma vida verde, esperta e sensual”. “Não é possível distinguir o que nas vitrines é moda não-vegana. Você não tem de parecer estar vestindo verde só porque você está”, disse Sarnoff, uma grande fã da olsenHaus calçados e Urban Fox lingeries.

De acordo com Leanne Mai-ly Hilgart, 26, fundadora e diretora de criação da Vaute Couture em Chicago, “costumava ser uma ideia comum a de que ser vegano é um sacrifício, e uma das coisas que seriam sacrificadas seria o estilo do seu jeito de se vestir – as pessoas que são veganas não se importam em se expressar através da aparência ou das roupas”, disse a modelo vegana da Ford. “Muitos veganos realmente exemplificam um novo padrão”.

Hilgart vai se apresentar pela primeira vez para a Vaute Coat no outono. Querendo uma jaqueta que fosse “fofa e respeitasse os direitos dos animais”  para passar pelo inverno brutal de Chicago, ela comprou um casaco “de ervilhas” e sobretudos feitos por uma fábrica da Polar Tech com material 100% reciclado que oferece isolamento térmico mas também “detalhes adoráveis” e uma “textura muito elegante”. As roupas foram feitas em Chicago por costureiras que, segundo Hilgart, têm um ótimo salário.

Quando ela vai às compras de roupas veganas, Hilgart disse, sai olhando e tocando as roupas como todo mundo em boutiques, departamentos de lojas ou em lojas vintage. Ela só toma o cuidado de ler todas as etiquetas – até mesmo as “pequenas etiquetas da parte de baixo” só para ter certeza de quem nenhum animal foi ferido na produção daquela peça de roupa.

“Não é um sacrifício ser considerado pelos outros. Você pode ter tudo”, disse Hilgart, que contribui com parte de seu cachê para uma organização de advocacia voltada para as causas animais de nome Farm Sanctuary. “Você só tem de ser mais cautelosa a respeito de suas escolhas, mas é plenamente possível ser consciente e estilosa também”.

*Com informações de Los Angeles Times

**Colaborou Lobo Pasolini  (da Redação)

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