Para os vegetarianos suscetíveis à força do vento


Os animais agradecem, mas é só por uma feliz coincidência que não lhes tiram a vida alguns vegetarianos: este texto é dedicado a todas as pessoas que se esquecem dos direitos animais, mesmo sendo vegetarianas ou veganas.

Para quem acompanha os meus textos e pensamentos, acredito que já esteja bem claro que não nutro nenhum tipo de admiração por uma pessoa apenas pelo fato de ela ser vegetariana. Isso, por si só, não é garantia de caráter ou de evolução espiritual. Hoje, pelo contrário, fico bem mais atenta quando alguém declara ser um vegano, fico de olhos e ouvidos atentos. Todas as formas de preconceito vestem, quase sempre, alguma máscara bonita e a empáfia mora bem ao lado das vaidades.

Recentemente, o médico e escritor Moacir Scliar, refletiu bem essa realidade, ao  publicar um artigo chamado “A tentação da carne” (leia aqui), ensaiando uma reflexão sobre os motivos que levam algumas pessoas à escolha de se tornarem vegetarianas e sobre o que devemos fazer diante do crescente questionamento do que ele chama de “cultura da carne”. A conclusão a que ele chega é a seguinte:

“Um vegetariano convicto, que faz de sua opção uma causa, é uma pessoa que, olhando para um bife sangrento, vê ali o animal que foi morto e esquartejado. O fã de churrasco, ao contrário, vê um prato saboroso. Como conciliar estas duas atitudes? A expressão-chave pode ser “vegetarianismo limitado”.  (…) In meso virtus, diz o antigo provérbio latino; no meio, não nos extremos, está a virtude. Qualquer pessoa concordaria com isso.”

Ao que pude compreender, Moacir quer expressar aos seus leitores a importância de um meio-termo ético, quando, na verdade, ele pretende que seja possível unir duas atitudes completamente incompatíveis. Pensemos: o que seria o meio-termo de um crime de assassinato? Matar sem que a vítima soubesse de sua morte? Continuaria sendo morte. Matar sem que a vítima sofresse? Continuaria sendo morte. Meio-termo é conceitualmente onde se encontra a virtude, ou seja, a medida equilibrada de um determinado elemento, qualidade, ou atitude, que não excede o necessário ou que não é inferior ao necessário.

O que ele chama de “vegetarianismo limitado” equivale ao que podemos chamar de “sejamos bons pela metade”, ou “sejamos bons apenas de vez em quando”, diferentemente do que seria pregar “não sejamos bons demais”. Ele reconhece em sua fala que devemos ser bons com os animais, respeitar a nossa saúde, mas que isso tem um limite. Ou seja, o que ele diz é uma falácia, pois o respeito que ele prega inexiste.

A virtude do respeito pelos direitos dos outros seres não pede meio-termo, o crime de tirar uma vida não admite meio-termo: meia garfada de carne consente na mesma medida o crime que consente a garfada inteira. O que ele quer, em última instância, é justificar a sua imobilidade ética, utilizando um conceito inventado de “meio-termo”.

As duas únicas preocupações do escritor (as doenças se alastrando nos corpos humanos por conta do consumo de carne e o planeta se definhando por conta do desmatamento provocado pela criação de animais para consumo de carne) são claras e comuns, por incrível que pareça, entre muitos vegetarianos. Por trás dessa obsessão pelo “meio-termo”, existe uma vontade de justificar a inércia do pensamento, a não necessidade da mudança de consciência em relação aos animais.

Seguindo essa mesma lógica de discurso, assim como ele, tem muita gente que se torna vegetariana não porque quer poupar a vida de um animal, que inexoravelmente também tem direito à vida, mas porque quer gozar de boa saúde. E a alimentação vegana, em especial, cumpre bem esse papel aos que adotam essa dieta. Feliz coincidência para os animais, mas para essas pessoas eles ainda continuam significando objetos, e não sujeitos com direitos fundamentais. A diferença é que agora são rejeitados do cardápio por serem tóxicos à sua saúde. Apenas não são mais alvos de seu paladar. Mas… e se não fossem tóxicos para a sua saúde?

Imaginemos: se a carne do animal misturada com jujuba fizesse bem para pele e contribuísse para a boa circulação sanguínea, ou se o planeta não reclamasse os efeitos colaterais negativos causados pela criação de animais para o consumo humano, será, então, que essas pessoas não deixariam de ser vegetarianas?

A verdadeira mudança se fundamenta na ética, no respeito. Pelo paladar, não há mudança, há apenas uma possibilidade incerta, um desvio temporário e suscetível à força do vento. Tornar-se vegetariano não basta para que a mudança seja consistente, profunda, verdadeira e permanente.


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