Sérgio Greif

Uma questão de ‘Tudo ou Nada’ ?

É certo que os direitos dos animais não serão conquistados da noite para o dia. Da noite para o dia as pessoas não se conscientizarão de que os animais possuem direitos inalienáveis, e ainda que o façam, provavelmente não adotarão o veganismo de uma vez. Certamente as pessoas não passarão, tão rápido quanto desejamos, a considerar a prática de um crime contra um animal na mesma categoria que consideramos os crimes contra seres humanos. Neste ponto concordam tanto as pessoas que defendem os direitos dos animais, quanto aquelas que acham que podemos continuar explorando-os, desde velando por seu “bem-estar”.

No entanto, há profundas discordâncias quanto ao que se pode fazer nesse meio tempo, qual a estratégia a ser adotada para de fato proteger os animais. Aqueles que lutam pela idéia de “bem-estar” animal defendem que, não sendo possível promover os direitos dos animais a curto prazo, deve-se promover sua exploração de maneira mais “compassiva”, “menos ruim”. Esta idéia, obviamente, contrapõe-se à idéia fundamental de que os animais não devem ser explorados e por isso ela deve ser rejeitada pelas pessoas que acreditam nos direitos dos animais.

Simplesmente não há porque comemorar quando o Centro de Controle de Zoonoses passa a “sacrificar” animais abandonados por um método menos doloroso, ou quando se aprova uma lei pelo “abate humanitário” de bovinos, porque essas não são conquistas em favor dos direitos dos animais. Essa estratégia apenas reafirma a idéia de que o que fazemos, que é anti-ético, pode ser resolvido simplesmente alterando a técnica. Essa idéia é especialmente perigosa quando vemos que muitos “protetores de animais” apóiam tais mudanças como se fossem “vitórias pela causa”. Isso é simplesmente a antítese de qualquer reconhecimento de que animais possuem direitos inalienáveis.

Por outro lado, em defesa dessa estratégia, têm-se dito que a luta pelos direitos dos animais, o que convencionou-se chamar de “abolicionismo”, é uma utopia para o momento e que os abolicionistas adotam a política do “tudo ou nada”. Por essa política de “tudo ou nada” entenda-se que, uma vez que a completa abolição da escravidão animal não é possível, não vale a pena lutar por pequenos ganhos. Essa má concepção é obviamente falsa, como veremos a seguir.

O movimento abolicionista jamais defendeu que seja possível tornar as pessoas veganas da noite para o dia, e muito menos o modo de ação desse movimento fundamenta-se na política do “tudo ou nada”. O que esse movimento defende, sim, é que nem tudo o que se faz em nome dos animais é em seu benefício e que, muitas vezes, o que fazemos nos levam mais para longe de nossos objetivos. Toda ação merece uma reflexão: Que benefícios tal ação pode trazer para a causa? Vale a pena despender energia e atenção do público para promover objetivos que não sejam nossos objetivos finais? Vale a pena uma entidade que se empenha em associar seu próprio nome com a defesa dos animais ou com um estilo de vida compatível com seus direitos promover algo que esteja em desacordo com esses objetivos? Há possibilidade dessa ação contribuir de alguma forma com objetivos oposto à causa?

Em verdade, o que aqueles que lutam pelos direitos dos animais defendem é que uma informação que leve as pessoas a concluir algo diferente daquilo que queremos que elas concluam é pior do que informação nenhuma. E uma ação que resulte em conseqüências que nos levem em direção diferente àquela para a qual queremos ir e pior do que ação nenhuma. Isso não é “tudo ou nada”, porque é possível fornecer às pessoas informações parciais mas que lhes indiquem o caminho a seguir e é possível se empenhar em pequenas ações que nos levem na direção correta. É possível se empenhar em uma campanha por um objetivo pontual mas que não esteja em desacordo com os direitos dos animais. Isso é significativamente diferente de adotar um objetivo que seja contrário aos direitos dos animais, ainda que aparentemente esteja ao seu favor.

Da noite para o dia…

Quando a informação é transmitida de forma clara e indubitável, as pessoas podem apreciá-la e entendê-la; não há confusão. Ainda que as pessoas não se sintam capazes de colocar esse conhecimento em prática, por uma série de fatores sociais, econômicos ou pela própria conveniência, o conhecimento foi adquirido. Com o tempo ele poderá ou não ser colocado em prática, mas isso dependerá exclusivamente do livre arbítrio da pessoa. A mensagem foi passada e entendida, cabe à pessoa começar a seguí-la tão logo sinta-se pronta.

Querer manipular a qualidade e profundidade da informação com base no que a população está preparada para seguir torna a mensagem confusa e contraditória. Os objetivos passam a se distanciar dos objetivos originais e, ainda que essa mensagem possa alcançar a mais pessoas, ela não representa de fato um ganho pela causa. A entidade sim, pode ganhar: doações de particulares e de outras entidades, incentivos governamentais, alianças com outras instituições… mas isso apenas beneficia à entidade e não à causa pela qual ela deveria estar lutando.

Para entendermos o prejuízo desse processo de “nivelamento por baixo”, tão recorrente nos grupos que defendem o bem-estar animal, tomemos como exemplo outras entidades que lutam por causas nobres: O que seria da luta anti-tabagista se a Sociedade Brasileira de Pneumologia passasse a recomendar cigarros com menos nicotina e alcatrão, “já que as pessoas não vão parar de fumar da noite para o dia”? O que seria da luta contra o alcoolismo se a Alcoólicos Anônimos adotasse a idéia de que consumir cerveja é “menos ruim” do que consumir bebidas destiladas? Se ela mantivesse um discurso do tipo “já que as pessoas não vão parar de beber da noite para o dia, pelo menos que bebam bebidas menos fortes”? Se um grupo de combate às drogas pedisse para que as pessoas só fumassem maconha aos fins de semana? Que credibilidade essas entidades teriam se derivassem seu discurso para esse caminho?

No caso da defesa dos animais as questões são as mesmas. Não há como acreditar em uma entidade que se diga protetora de animais quando sua defesa é que animais de laboratório podem ser usados desde que o cientista se comprometa com seu “bem-estar”, utilizando técnicas mais refinadas e em um número reduzido de animais. O que dizer de uma entidade que se empenha em participar de “comitês de ética na pesquisa”, como se a utilização de animais saudáveis em experimentos científicos e demonstrações didáticas, de alguma forma pudesse ser justificável pela ética?

O que dizer de uma entidade que, ao invés de pregar pelo vegetarianismo estrito, se empenha em promover um sistema de exploração animal “menos ruim”? Galinhas e vacas criadas soltas, sem hormônios, para a produção de carne, leite e ovos? As entidades alinhadas com a idéia da promoção do “bem-estar” animal defendem que esse sistema de criação é positivo, porque os animais não “sofrem excessivamente”. Referem-se aos modernos métodos de criação mecanizada em termos negativos e fazem referências à época áurea em que os animais eram criados soltos na fazenda, sendo “respeitados pelos fazendeiros”.

Ocorre que, passando essa mensagem ao público, o que se entende é que o abate de animais, sua exploração propriamente dita, não é um erro. Que o erro está na forma como isso é feito. Fala-se em “abate humanitário”, um termo totalmente fora de propósito, porque abater um animal saudável jamais será um ato de compaixão, um favor que se faz para ele. Da mesma forma, fala-se em leite de vacas sem hormônios, em queijo sem coalho animal, em ovos de galinhas criadas soltas, etc, como se essas pequenas alterações no sistema de exploração fossem a solução para o problema em si.

É claro que a maior parte da população não deixará de comer ovos ainda nessa década, nem é essa a concepção daqueles que defendem os direitos dos animais. Isso não quer dizer que os grupos de “proteção” animal tenham o direito de estabelecer quais ovos podem ou não ser consumidos, porque o que se espera de um grupo que de fato respeita os animais é que a mensagem seja sempre a de que é errado explora-los, não importa por quais meios.

A pessoa que cultiva um hábito alimentar onívoro, uma vez que entenda e aceite esses argumentos, provavelmente não se tornará imediatamente vegana, e nem é isso que se espera que ela faça. É provável que ela abandone o consumo de carne vermelha, carne branca e por algum tempo ainda mantenha o consumo de ovos e laticínios. Mas porque esse tempo de transição existe e deve ser respeitado, não significa que devamos alterar o discurso. Consumir produtos de origem animal continuará vinculado à exploração de animais, como o era no inicio, apenas que nesse momento entendemos que a pessoa esteja adaptando seu sistema e seus hábitos a uma nova situação, que poderá durar décadas e poderá estar repleta de tentativas mal sucedidas. Aqui fica claro que não é uma questão de “tudo ou nada”, porque a fase de transição existe e pode perdurar por muito tempo.

Quando grupos deixam de promover o veganismo, acreditando que as pessoas não adotarão imediatamente esse hábito, e passam a promover algum outro hábito alimentar intermediário onde se faça uso de produtos de origem animal, na verdade encontramos uma mensagem truncada, corrompida e até contraditória. Porque toda a argumentação em favor de um hábito alimentar vegetariano em verdade se aplica ao vegetarianismo estrito, não servindo de suporte ao consumo de ovos, leite, mel ou outros produtos de origem animal. Parece claro que o ovo-lacto vegetarianismo é um prelúdio ao vegetarianismo estrito; trabalhar o ovo-lacto vegetarianismo como objetivo final contradiz o veganismo e todos os argumentos em favor do vegetarianismo.

De igual maneira, admitir que resultados obtidos de experimentos com animais não se aplicam para seres humanos e ao mesmo tempo defender que animais necessitam continuar sendo usados em laboratórios enquanto não forem criadas técnicas que os substituam são duas informações essencialmente contrárias entre si.

Trabalhar duas frentes antagônicas é contraditório, confunde a informação e parece mostrar que existem formas de amenizar o que fazemos com os animais, tornar sua exploração de alguma forma ética. Dessa forma, as más obras acabam por encobrir as boas obras, e a energia dispensada para causar desinformação à população sobrepuja a energia gasta para produzir boas informações. O saldo é negativo.

Abolição – o caminho a seguir…

Vemos surgir, em tempos mais recentes, um movimento de fato pelos direitos dos animais. Esse movimento ainda está se estruturando, ganhando forma, mas certamente deverá diferir significativamente dos movimentos que aí se encontram. Por não adotar nenhum modelo pré-existente, possivelmente seu trabalho passará despercebido. Mas seu objetivo não será fazer política ou aparecer, e sim promover o fim da exploração animal.

Se esse movimento virá a se constituir em uma ou mais entidades ainda não podemos saber, mas particularmente creio que isso seja desnecessário. Cada vez mais me convenço que as entidades podem contribuir muito pouco para o fim da exploração animal. A solução parece não estar nas mãos de um grupo nem de políticas miraculosas, mas sim em uma inversão de valores de toda a sociedade e no trabalho despretensioso de seus indivíduos.

Sérgio Greif- Biólogo, mestre em Alimentos e Nutrição, co-autor do livro “A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo” e autor de “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável. É colunista da ANDA.

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