Pecuária


Com certeza a forma de exploração animal mais difundida e socialmente aceita é a pecuária, com a criação de animais para a indústria alimentícia, seja por meio de sua carcaça, seja por meio de subprodutos (ovos, leite), e que também gera subprodutos para outros tipos de indústria (como o couro para a indústria do vestuário).

As principais espécies de animais criados para estes fins são bovinos, suínos, ovinos, caprinos, coelhos e aves, especialmente galináceos, patos e perus. No Brasil, por questões culturais, históricas e geográficas, as principais espécies usadas na pecuária são os bovinos, os suínos, os caprinos e os galináceos. Existe, em nosso país, atualmente, mais bovino que seres humanos.

A pecuária é responsável por uma série de abusos e violações de interesses básicos dos animais a elas submetidos. Os animais criados para alimentação vivem apenas uma fração da idade que poderiam viver em liberdade. Para se ter uma idéia, uma vaca pode viver mais de 20 anos em liberdade, mas em cativeiro, é abatida antes dos 5 anos. Bois vivem ainda menos, sendo abatidos entre 2 e 3 anos de idade. Com a manipulação genética e a eugenia, e diante da crescente demanda por carne, tem-se buscado criar bois que cheguem cada vez mais cedo à idade de abate, uma forma de criação conhecida como “novilho precoce”. Galinhas podem viver mais de 10 anos, e em cativeiro o abate se dá entre 2 e 3 meses.

No Brasil ainda predomina a pecuária bovina extensiva (em pastos, em vez de confinamento), em geral livre de hormônios. Isso não quer dizer que as condições de vida do rebanho brasileiro sejam boas ou aceitáveis, e é, de todo modo, uma situação que tende a se transformar nos anos vindouros, diante da pressão por “modernização” da pecuária e da demanda crescente pela carne brasileira (no país e no exterior, sendo o Brasil um dos maiores exportadores de carne do mundo). De modo geral, estes animais estão expostos a uma série de maus-tratos: mutilações sem anestesia (castração pela retirada dos testículos, corte de chifres), deformações causadas pela manipulação genética (as vacas, por exemplo, produzem 12 vezes mais leite do que o normal, muito em função da manipulação genética; esse leite excessivo causa dor, infecções e pode matá-la, se solidificando no organismo do animal), marcação a ferro. Certos tipos de doenças, mesmo que não sejam fatais, resultam no abate do animal, pois é economicamente mais interessante matá-lo que administrar um tratamento de saúde caro.

Um aspecto pouco difundido da pecuária é o destino dos animais envolvidos nas indústrias leiteiras e de ovos. Em geral ignora-se que este ramo da criação também envolve abusos que levam, em última instância, ao abate dos animais nela envolvidos. As vacas criadas por seu leite estão constantemente prenhes, para produzirem leite. Os bezerros, que naturalmente mamam por pelo menos 6 meses (mesmo tempo do ser humano), são separados das mães em 1 semana, situação que acarreta sofrimento psicológico para a mãe e seu filhote. As fêmeas serão destinadas à produção de leite também. Os machos não têm valor comercial para o produtor, e como as raças são selecionadas para um determinado tipo de produção (carne, leite, couro), sua carne também não é valiosa. Desse modo, os bezerros podem ser descartados rapidamente (e da enzima presente em seu estômago será feito o coalho do queijo), ou serem desviados para a produção de carne de vitela. Para obter-se a carne de vitela, o filhote será criado confinado durante 4 meses, amarrado e no escuro, para não desenvolver músculos, e alimentado apenas com pequenas doses de leite, induzindo assim uma anemia que fará da sua carne mais leve e branca. As vacas estão ainda sujeitas a doenças infecciosas devido à constante ordenha e, não raramente, depois de 4 ou 5 anos de idade, estão tão esgotadas que mal conseguem andar normalmente. Nessa fase elas serão abatidas e serão aproveitadas as últimas partes de corpo: a carne menos nobre será vendida como carne de segunda, dos ossos e cartilagens se faz gelatina e cola, da pele se faz o couro. Existem algumas fazendas de leite “orgânico” no Brasil, algumas das quais alegam não abater as vacas, mas os bezerros machos costumam ser vendidos para o abate.

A criação de suínos também é bastante difundida no Brasil. Nas criações de pequena escala, estes animais costumam ser criados em condições precárias. O fato de muitos deles serem criados em meio à lama e sujeira popularizou o adjetivo de “porco” para pessoas que não observam os cuidados de higiene, mas esta não é a forma como os porcos viveriam na natureza. Nas criações em grande escala, eles vivem confinados em espaços onde mal conseguem se mover, e nos quais as porcas amamentam seus filhotes através de barras, com o mínimo de contato físico. Em qualquer dos casos, eles vivem expostos a abusos semelhantes aos que foram descritos para bovinos, como mutilações e deformações, separação precoce entre mãe e filhote, negligência nos cuidados básicos. Também é comum que porcos que vivem amontoados se agridam mutuamente.

Cabe destacar ainda que o abate humanitário, que o Brasil exige, por lei, e que é usado como argumento pelos defensores da atividade pecuarista, é em vários sentidos uma falácia. Sabe-se que a maioria dos abates feitos no país ainda não segue este padrão. Há diversos abatedouros clandestinos, criações em pequena escala e fazendas de gado em zonas remotas, e a fiscalização é muito precária. Além disso, mesmo quando aplicado, o abate humanitário não é tão indolor quanto se sugere. A dessensibilização dos animais nem sempre é eficaz. Muitos animais ainda estão conscientes no momento em que são sangrados, abertos e têm sua pele retirada. Além disso, os animais sofrem antes de chegar ao momento do abate, devido ao transporte para os abatedouros e as condições em que é feito, e também porque uma vez no abatedouro, eles são capazes de perceber o que lhes espera, pois sentem o cheiro do sangue dos animais que foram abatidos primeiro.

As aves estão sujeitas a abusos que talvez sejam ainda maiores que os descritos no caso de mamíferos, provavelmente por serem de outro ramo do reino animal, com o qual o ser humano se vê relacionado com mais dificuldade – não à toa, muitas pessoas que comem aves se descrevem como “vegetarianas”. No caso das galinhas de granja, sua criação geralmente se dá em gaiolas onde elas são criadas confinadas e amontoadas, situação estressante que as leva a adotar um comportamento agressivo, em função do qual têm as pontas de seus bicos cortadas para não ferirem umas às outras. Assim que a sua “produção” de ovos cai, elas são abatidas. Os filhotes machos das galinhas poedeiras são descartados, pois assim como o bezerro macho, não têm valor comercial. Frangos criados para consumo nascem em chocadeiras, jamais têm contato com suas mães. Muitos deles nascem com defeitos congênitos ou são simplesmente considerados “fora do padrão” são imediatamente mortos e triturados, em geral usados para ajudar a compor ração animal. Os demais vivem em média 40 dias. A manipulação genética faz com que se desenvolvem espantosamente, nesse período, mas de modo que seu próprio organismo não suporta. Sem exercitarem-se, seus músculos atrofiam, e o excesso de peso faz com que tenham dificuldade de locomover-se. Muitos desses frangos e galinhas chegam à fase do abate doentes e com fraturas e ferimentos causados pelo manejo brutal. Na criação de ovos de galinha caipira, as galinhas são criadas soltas. No entanto, o mesmo padrão se repete: os filhotes machos são descartados e as galinhas com queda de produção, vendidas para o abate.

De qualquer forma, estes abusos e mortes apenas acontecem porque há demanda pela carne, leite e ovos desses animais, razão pela qual os defensores dos direitos animais defendem a adoção de uma dieta vegetariana estrita como única forma de ser coerente com o princípio de respeito pelos animais.

Deve-se ressaltar, por fim, o impacto ambiental causado pela pecuária. Milhões de dejetos produzidos por animais multiplicados artificialmente são fatores de poluição do solo e das águas. A quantidade de água usada na criação desses animais, não só em seu consumo direto, mas também em toda a cadeia produtiva (usadas na limpeza, nas máquinas, no tratamento da carcaça, etc.) representam grande desperdício. A pecuária é, em todo o mundo, o principal fator de derrubada de florestas, para a criação de novos pastos, e no Brasil não é diferente, estando grande parte do rebanho bovino do país situado na fronteira da Amazônia. As emissões de gases gerados pela digestão de bois e vacas foram apontados, por relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), como uma contribuição maior para o efeito estufa que as emissões do setor automotor.


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