A lucidez dos desenhos animados


Jantar em família; sobre a mesa, pizza de atum. O menino, com seus quatro anos, reclama ao pai que quer pizza de “queijinho”. “Come essa, filho, é de peixinho”, argumenta o pai. O garoto reluta.

Ao lado, sobre a estante, um peixe nada tranqüilamente no aquário sem saber que um parente seu teve menos sorte no cotidiano da família. Minutos antes do jantar o garoto dava comida ao seu querido animal de estimação, seu peixinho, como o chama.

Observando a cena percebo a inconsistência do que ensinamos às nossas crianças, criadas em um mundo repleto de contradições. Será que o menino assistiu ao filme Procurando Nemo? É estranho como torcemos para Nemo salvar-se dos pescadores e dissociamos a imagem do peixinho tentando sobreviver na telona do peixe no prato sobre a mesa.

Os desenhos infantis há tempos chamam a atenção para essa ligação afetiva com os animais e o desespero que eles sofrem para não virar o prato principal. Que o digam as galinhas da animação Fuga das Galinhas, que passam todo o filme armando planos para não virar torta.

Os personagens criam uma identificação com as crianças, que torcem durante todo o filme para que seus amigos saiam vivos e ilesos. Em meio a animais tentando escapar de virar comida, surgem personagens que seriam naturais predadores, como o tubarão, vegetarianos. Esse é um dos principais motes do desenho Espanta Tubarões e aparece também nos tubarões que tentam ser vegetarianos em Nemo.

Em O Segredo dos Animais, vacas, galinhas, bois, porcos vivem livremente na fazenda e comemoram o fato de o fazendeiro ser vegan – ou seja, não comer animais. Durante a exibição no cinema lembro-me de ter escutado uma garotinha perguntar, olhando para a vaquinha na tela: “Isso que é bife, mamãe?”

Seguimos assim ensinando nossas crianças a serem amigas dos animais – começamos dando bichinhos de pelúcia – ursos, peixes, porquinhos, gatinhos – e acabamos arrumando um animalzinho de estimação para fazer companhia e ser amiguinho. Levamos os pequenos para ver filmes em que as galinhas, peixes, porcos, vacas sofrem porque não querem morrer e virar comida; torcemos com eles para os animais se salvarem e comemoramos no final de semana comendo churrasco ou pizza de atum. Como dizemos aos nossos filhos que um peixinho é parte da família, deve ser amado e cuidado com carinho, e outro deve morrer para ser nossa refeição?

Quando nos desenhos animados a voz em defesa dos animais não vem da boca dos próprios, pode sair da única personagem inteligente em uma família confusa – para dizer o mínimo. E a garotada maior cresce vendo Lisa Simpson, vegetariana convicta, sendo taxativa ao afirmar que se recusa a comer “bichos mortos”.

Em que momento será que perdemos a lucidez e afinidade das crianças com os animais e deixamos de alimentá-los para passarmos a nos alimentar deles?

“Os animais são meus amigos e eu não como meus amigos”
(George Bernard Shaw, escritor e dramaturgo irlandês,
prêmio Nobel de Literatura)


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