A difícil arte da não violência


Falar sobre não violência é algo muito fácil; difícil, porém, é compreender seu significado e colocá-lo em prática. Falamos a todo o momento em não violência e a todo o momento violamos vidas. Falamos a todo o momento de respeito e a todo o momento desrespeitamos vidas.

Patch Adams, aquele doutor que usaram como inspiração para o filme; “Patch Adams, O Amor é Contagioso”, numa entrevista cedida à TV Cultura disse, tal qual como Nietzsche já o fizera um dia, que nós nos enganamos constantemente. Que vivemos numa sociedade de mentiras, nas quais somos fingidos e mentirosos por acomodação. Achamos que precisamos de um relógio de 2 mil dólares porque a sociedade acha bonito, porém não precisamos e sabemos disso, mas também nos enganamos tanto a respeito do relógio quanto de outras coisas. Achamos que praticamos a não violência quando não matamos ninguém, quando não ofendemos ninguém. Mas nos enganamos e enganamos a sociedade quando acreditamos que somos realmente não violentos.
 
Nessa mesma entrevista, Patch Adams fala sobre as pessoas que se vestem de palhaço e seguem para os hospitais para divertir as crianças. Chegam, trocam de roupa e às vezes sequer brincam ou conversam com enfermeiros e médicos, fazem lá suas palhaçadas, alegram as crianças, depois tiram a roupa e voltam para suas casas; não olham no rosto do cara dentro do elevador, não agradecem o rapaz que segurou a porta giratória, não olham na cara do idoso que estacionou seu carro. E acham que não são violentos por alegrarem as crianças dentro do Hospital. E Adams vai mais longe e diz que “eles realmente se enganam achando que levam a alegria ao Mundo”. Eles se enganam, e isso sou eu quem diz, quando se acham não violentos.
 
Vivemos mesmo numa sociedade enganadora, em que não desejamos ver o que realmente somos. Mentimos para nós mesmos para nos adaptar ao Mundo e, “ai” daquele infeliz que tentar ser diferente. Chacotas, ridicularização, escárnio, o pobre coitado ou é louco, ou tem problemas cármicos, decididamente, não se encaixa no perfil da sociedade perfeita.
 
E nossa sociedade é perfeita, correto?
 
Somos mesmo não violentos, só porque não matamos ninguém?
Moralmente, somos não violentos?
 
Tom Regan, em seu livro “Jaulas Vazias”, conta que fez uma reunião em sua casa para montar uma base que objetivava o fim do envolvimento americano na guerra do Vietnã que estava tirando os filhos de tantas famílias, e transformando-os em soldados, soldados/filhos que morriam nos campos de batalha. O grupo buscava por uma solução pacífica para aquele conflito através da não violência. Aquela era uma guerra desnecessária. Para tanto, assou um cordeiro inteiro para o grande dia da reunião, depois, segundo ele, foi Gandhi em sua autobiografia, que o fez abrir os olhos ao “perguntar” que tipo de homem, movido pela não violência, violava uma vida numa guerra desnecessária entre homens e animais?
 
Para lutar pela paz, ele havia feito a sua pequena guerra e tirado uma vida; cometera, ao assar o cordeiro, a mesma violência que pensava tentar impedir. Como salvar uma vida tirando outra? Nem é preciso dizer que Regan tornou-se outro homem depois disso, tornou-se vegetariano, porque ser vegetariano é praticar a não violência de forma mais racional.
 
Mas nós nos dizemos adeptos da não violência, afinal não matamos ninguém, não discutimos no trânsito, não…não….tantas coisas simples de se fazer.
 
Cultuamos a violência de uma forma enganosa , para a qual fechamos nossos olhos por puro comodismo. Diariamente matamos milhões de animais porque nos fizeram acreditar que precisávamos deles para nos manter vivos. Olhe para seu prato de comida e veja se não houve qualquer violência cometida contra aquele ser que está ali. Deixe de ver aquele pedaço de bife apenas como carne, mas tente vê-lo como uma vida que sofreu para estar ali, e tente dizer a você mesmo: Eu sou adepto da não violência, do Ahimsa, esse amor Universal capaz de abarcar todos os seres da Criação.
 
Você acha que consegue? Acredita mesmo no que diz?
 
Faz idéia de como aquele pedaço de carne chegou até seu prato? Ah não, a maioria nem deseja saber, quanto mais falar sobre isso. Tem duas atitudes, ou pede ao interlocutor que se cale, ou tenta ridicularizar a morte, tentando banalizá-la, pois assim pode continuar se enganando dia após dia.
 
Como é difícil praticar a não violência não é? Mas por que fazemos isso?
 
Vamos nos descobrir um pouco mais, pois os ventos não param de soprar e vão, de qualquer maneira, nos impulsionar adiante, queiramos ou não, aceitemos ou não. “Eu sou adepto da não violência”. Falemos isso bem alto. Conseguimos acreditar nisso?Como conseguimos crer que somos bons apenas porque alimentamos os pobres e vestimos os que passam frio? Mas aí lembramos que alguém nos disse um dia “Fora da Caridade Não Há Salvação”…
 
Por que nos enganamos, nos fazendo acreditar que ser violento é apenas agredir nosso igual; não contamos como não violência a morte de outros seres que dividem conosco esse espaço de Mundo chamado Terra. Não, isso não conta, porque mentimos constantemente para nós mesmos. E a coisa não muda muito quando falamos sobre o pensamento de algumas religiões.
 
Nietzsche, sempre inspirado, escreveu que Deus havia morrido. Sim, e é verdade, deus está morto para o homem a partir do momento em que nos “O” moldamos as nossas necessidades: “O homem molda Deus as suas necessidades, e não as Suas Leis”.(Nietzsche)
 
Segundo o filósofo alemão, em todas as épocas da humanidade houve um Deus diferente, e assim ainda o é, dependendo do que necessitemos. Ora criamos um deus egoísta, outra hora um deus vingativo e punitivo, ora um deus adorável que tudo permite apenas para que possamos dormir em paz, porque na verdade não queremos ouvir o que o Deus vivo realmente tem para nos dizer; e se Ele disser que teremos todos que ser adeptos praticantes da não violência? Que será de nós? Simples! Apelaremos àquele deus piedoso que criamos,  ou àquele que perdoa tudo, até nossa inesgotável falta de vontade de mudar, afinal esse é um planeta de expiação e provas ainda, é um planeta em transição, um planeta de aprendizagem e erros…
 
E por que chegamos às religiões? Porque são elas, ao menos teoricamente e sem fanatismos,  os caminhos que levarão o homem a Deus e ao Ahimsa.
 
Conversando com diversas pessoas de diversas religiões, ouvi de todos eles a mesma explicação. Somos adeptos da não violência contra os animais, até somos a favor de respeitá-los como irmãos, porém não pregamos o vegetarianismo/veganismo (?). Como se ambas as coisas não tivessem ligação uma com a outra.
 
Falar sobre vegetarianismo/veganismo realmente assusta algumas religiões, porque vai fazer com que as pessoas comecem a se mexer, a mudar de atitude a realmente praticar a não violência com uma classe de seres que são sempre esquecidos e marginalizados, os animais, que alguns insistem em dizer que foram criados para o abate. Outra criação “divina” que nos pertence.Criamos um deus sob o pretexto de podermos nos alimentar de vidas e dizemos a mesma coisa há séculos: deus os criou para nos servir, o Nosso deus, não o Deus de verdade.
 
Falar sobre não violência é fácil, não é?
 
Mas, e mostrar que as pessoas cometem uma ação violenta com um animal todos os dias, duas ou até três vezes ao dia? Isso amedronta apenas aqueles que não possuem fé o suficiente no Deus vivo, não aquele moldável, mas no Deus Criador, e isso realmente é tarefa para poucos, pois tirar do radicalismo uma sociedade milenar que explora os animais é algo realmente dificílimo.
Isso ocorre em muitas religiões, prega-se a não violência e violenta-se vidas diariamente. Por que não esclarecer? Por que não mostrar a verdade? Alguns dizem que ao se falar  a verdade, incorre-se no risco de perder adeptos, de confundir, de criar conflitos. Mas então por que dizer-se não-violento então?
Não violência é não matar, não prejudicar? E não matar ou prejudicar significa o quê? Não matar apenas humanos? É claro que não, não ser violento se traduz em “não ser violento em nenhuma de suas ações”, nenhuma. A ação humana mais simples, o ato de comer, é talvez uma das mais violentas de todas, e é ignorada porque somos condicionados desde pequenos a acreditar que “deus” fez os animais para virarem comida.
 
Então não importa mais se eles possuem alma, se são nossos irmãos, se voltam a reencarnar em nossa família, se existe ou não a metempsicose, acreditamos e nos dessensibilizamos a respeito de suas vidas. Num único parágrafo já criamos inúmeros deuses e os moldados às nossas necessidades; deus cruel, deus piedoso, deus dessesibilizado da dor de seus filhos, deus que pede o Himsa ao invés do Ahimsa.
 
Ser não violento com os animais não é apenas não abandonar gatinhos indefesos, não mutilá-los. Não significa apenas salvar as baleias porque são grandes e bonitas, não é apenas lutar contra a morte das focas ou dos golfinhos, ser não violento é não permitir que bois, suínos, entre outros, sejam assassinados (pois essa é a palavra correta) para que tenhamos em nosso prato um pedaço de carne da qual não precisamos mais, embora haja aqueles que desejam acreditar que exista ainda tal necessidade. Ser não violento é não vivisseccionar, é não permitir a dor, é não explorar, não confinar em jaulas para exposição ou para divertimento, isso é ser não violento, ignorar isso é ignorar o ato de ser não violento.
 
Se Jesus, Krishna, Gandhi e tantos outros pregavam a não violência, é porque também viviam o que falavam, porque se não vivenciassem, suas palavras de nada valeriam e não teriam eco no Mundo de hoje. Não há regras para o amor, regras são coisas utilitaristas, que fazem bem somente àqueles que se valem delas para viver.
 
Por isso repito: Nós moldamos Deus às nossas necessidades, criamos regras que nos facilitem a vida para que entendamos a nosso modo e pratiquemos, a nosso modo, Sua Lei de Amor. Temos preguiça de amar de verdade simplesmente porque somos acomodados. E se praticássemos a não violência da qual nos utilizamos todos os dias, para com aquelas  pessoas que achamos que são diferentes de nós, assim como fazemos quando se trata de animais? O que seria delas se as deixássemos marginalizadas ao lado da sociedade? Estaríamos mesmo praticando a não violência? A coisa muda de figura quando pensamos assim, não é?Por que esse medo de unir o que nasceu unido e que nós, a nosso bel prazer, separamos?
 
Não violência, Ahimsa = não ser violento, não matar, não prejudicar.
 
Não violência não significa “Matar”, embora nós fechemos os olhos para isso por puro comodismo social.
 
É preciso que despertemos para essa violência diária que praticamos, falar sobre não violência não é mais tão importante, o importante é colocá-la em prática, não somente com os da mesma espécie, mas com todas as demais que o verdadeiro Deus criou.
 
O Ahimsa é Universal, o amor é Universal, basta nos vermos agora, como seres pertencentes ao Universo. 
 
 
Simone Nardi, escritora e estudante de filosofia, é autora do blog Consciência Humana, colunista do Site Espírita da Feal (Fundação Espírita André Luiz), e fundadora do Grupo de discussão espírita Clara Luz, que discute a alma dos animais e o respeito a eles. É editora da ANDA.


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