Direitos animais – Bruno Müller

Um vegano deve usar remédios?

Todos sabemos que o princípio básico do veganismo é o boicote aos frutos da exploração animal. Também sabemos que todos os medicamentos disponibilizados no nosso país são testados em animais. Veganos, aspirantes a veganos e onívoros, portanto, fatalmente colocam esta pergunta, com objetivos diferentes: um vegano deve usar remédios?

Veganos e aspirantes muitas vezes as colocam por se sentir diante de um dilema moral. Onívoros, com o objetivo de apontar outro tipo de dilema: entre a hipocrisia do vegano que se permite usar medicamentos e o radicalismo suicida daquele que se recusa a fazê-lo.

Tal questão não pode, porém, ser enfrentada de maneira simplória, nem determinista. Os princípios da filosofia vegana efetivamente entram em choque quando se trata de responder qual a posição eticamente aceitável para o uso de medicamentos testados. Porém, este dilema não é tão generalizado nem tão dramático quanto veganos e onívoros parecem simultaneamente pensar.

Dois fatores iniciais e determinantes ajudam a tirar esse debate do terreno maniqueísta do “ou tudo, ou nada”. O primeiro deles diz respeito ao próprio estilo de vida do indivíduo, e como este influi na sua saúde. Embora a medicina muitas vezes dedique-se exclusivamente a combater ou mitigar males de saúde já estabelecidos, e boa parte da pesquisa medicinal orientar-se nesse sentido, o fato de que a saúde depende muito mais do estilo de vida e da prevenção de doenças já é cientificamente fundamentado. Os hábitos de higiene, os exercícios físicos regulares, as boas condições sanitárias e ambientais (incluindo fatores como a poluição atmosférica e exposição a produtos tóxicos) e a boa alimentação são fatores determinantes para a saúde de um indivíduo.

Nesse sentido, a própria dieta vegana já contribui em grande medida para a preservação da saúde – e, conseqüentemente, a dispensa de medicamentos alopáticos. Contribui, mas não é suficiente. A dieta ideal deve ser não apenas vegana, mas prescindir ao máximo de alimentos industrializados, que contêm produtos potencialmente tóxicos, e alimentos criados com agrotóxicos. Mais fácil dizer que praticar, mas essa dieta o mais natural possível contribui enormemente para a manutenção da saúde daqueles que a seguem. Além disso, é importante observar os exercícios físicos e manter-se tanto quanto possível longe dos fatores ambientais potencialmente perigosos para a saúde. Na nossa sociedade urbana e industrializada, porém, um estilo de vida saudável nem sempre depende de nossas ações isoladas.

O segundo fator que contribui para desmitificar o dilema entre veganismo e medicamentos é a existência de terapias medicinais não alopáticas, cujos medicamentos não são testados em animais. Tenho em mente, principalmente, a homeopatia, a fitoterapia e a acupuntura. Essas são duas soluções plausíveis para aqueles de nós que vivem exatamente na situação descrita acima: vivem expostos a um ambiente lotado de ameaças reais e potenciais à saúde, as quais não se pode evitar apenas por meio de ações individuais. Sei bem do que estou falando, sendo alérgico praticamente desde o nascimento (muito antes de veganizar, portanto). Além de a adoção do veganismo ter reduzido sensivelmente minhas crises alérgicas (e minha dependência de medicamentos contra alergia, que não curam, apenas atuam sobre os sintomas), desde que busquei tratamento fitoterápico eu tive uma melhora gigantesca. Minhas crises alérgicas praticamente acabaram, acabando também com meu dilema sobre o uso de medicamentos para controlá-las. É público e notório, porém, que tais terapias não são aceitas ou acreditadas por todos. Eu mesmo não tive sucesso nas minhas tentativas com a homeopatia. Porém, cabe ressaltar que a fitoterapia e a homeopatia são terapias holísticas, ou seja, tratam do organismo como um conjunto integrado, e fazer uso delas sem tentar tratar dos demais aspectos insalubres de nossa vida reduz a chance de um tratamento bem-sucedido.

Há, porém, aqueles casos emergenciais que são brandidos pelos críticos do veganismo e das terapias “alternativas”. E se você sofre um acidente de trânsito? E se, apesar de todos os cuidados possíveis, é acometido de uma doença grave? É sabido que a homeopatia, a fitoterapia e a acupuntura são tratamentos de médio e longo prazos. Seria eticamente condenável e contraditório um vegano recusar tratamento médico? Ou seria hipocrisia, como dizem os onívoros?

A minha opinião é um convicto “não”. Conheço caso de veganos que sofreram acidentes que requereram internação hospitalar – inclusive uma pessoa que considero uma das mais dedicadas e coerentes no que se refere ao veganismo. Conheço casos de veganos que necessitaram de cirurgia. E tenho um caso familiar de doença crônica em pessoa não-vegana, que depende de medicamentos para levar uma vida minimamente suportável. Eu não diria a nenhuma dessas pessoas que lutar para preservar suas próprias vidas é eticamente condenável. Não esqueçamos que o veganismo não defende o sacrifício pessoal, mas sim a abstenção de explorar. Todos os veganos que conheço que precisaram de apoio da medicina tradicional ocidental-moderna fazem suas partes:  praticam o boicote, não consomem produtos testados e não tomam remédios em função de qualquer dor de cabeça banal. Porém, ao serem confrontados com a necessidade de preservar suas próprias vidas e sua integridade física e psíquica, não podem se curvar à chantagem dos onívoros. Não é incoerente aceitar tratamento médico se este for irremediavelmente necessário para salvar suas vidas ou manter sua integridade (não esqueçamos que a questão da integridade é fundamental, caso contrário seria eticamente aceitável explorar e não matar).

Não é culpa dos veganos se a ética médica especista faz testes em animais não-humanos, os quais são desnecessários e até perigosos para a saúde humana, pois induzem a conclusões enganosas. O fato é: os veganos não lutam (necessariamente) contra a medicina ocidental-moderna. Embora falha e limitada, ela pode, tanto quanto as demais, contribuir para prolongar o tempo de vida do ser humano e sua qualidade. Pessoalmente, acredito que a medicina ideal não está numa vertente exclusiva, mas no melhor que cada uma das vertentes tem a oferecer.

A posição eticamente coerente e correta é, portanto, denunciar os testes em animais não-humanos, lutar pela sua abolição e pelo emprego dos métodos substitutivos já existentes, boicotar totalmente o uso de produtos testados em situações que não sejam emergenciais. O sacrifício em favor de uma causa (dependendo de qual ela seja) é belo e louvável, mas nem sempre é a opção mais inteligente – pois um ativista vivo sempre pode contribuir mais pela causa do que um morto. Tampouco, o sacrifício pessoal pode ser exigido como regra de conduta, e qualquer estudioso da ética concordará quanto a este ponto. Assim, nem o vegano disposto a este sacrifício, nem o onívoro vigilante das contradições veganas podem exigi-lo daquele vegano que, por quaisquer razões que sejam, se veja diante do dilema de usar tratamentos e medicamentos testados para preservar sua vida e sua integridade. Um dilema que, como afirmei acima, é bem menos comum e dramático como o senso comum sugere.

11 COMENTÁRIOS

  1. Foi ótimo você abordar esse assunto, pois é um dilema de verdade. Fui premiada com duas doenças crônicas e hoje, é díficil me imaginar sem os remédios. Mesmo sendo vegana e boicotando tudo e todos que exploram animais para lucrar, não me sinto completa. Afinal faço parte dos consumidores de 2 dos laboratórios mais poderosos da indústria farmacêutica! Que usam e abusam de animais! É triste e complicado…

    Excelente artigo!

  2. Excelente abordagem sobre um tema bastante polêmico, que foi elucidado de forma exemplar e bastante prática. Creio que a grande questão seja lutar para que tenhamos opções éticas no mercado para aqueles, que pela imposição de alguma doença crônica, tenham a necessidade do uso contínuo de medicamentos. Parabéns!

  3. Excelente texto! – “Não é culpa dos veganos se a ética médica especista faz testes em animais não-humanos, os quais são desnecessários e até perigosos para a saúde humana, pois induzem a conclusões enganosas.” [2]

  4. Sou vegetariana, ainda nao sou vegana, pois como leite e ovos, mas não consumo produtos de origem animal, nem testados em animais. Mesmo se vier a cólica mais forte não vou tomar remédios, pois é melhor eu sentir uma dor do que um animal sofrer por minha causa.

  5. “Não é culpa dos veganos se a ética médica especista faz testes em animais não-humanos, os quais são desnecessários e até perigosos para a saúde humana, pois induzem a conclusões enganosas”. Não sou vegano, mas simpatizo com a nobreza da causa de vcs, mas permito-me criticar o texto em referência como farmacêutico bioquímico. Como fazer os textes de um medicamento se não em um modelo animal? Defendo que os testes em animais sejam feitos no limite da necessidade, mas em todos os casos são necessários. Qual humano vai se sujeitar a um teste que pode matá-lo? Não teriamos nenhum medicamento hoje. No caso de medicamentos contra o cancer, como vou saber a dose mg/Kg sem testar em um modelo com cancer. Vou expor uma pessoa doente e debilitada a um prototipo? Não defendo a morte de nenhum animal, mas apenas levantar uma discussão de que metodologias alternativas aos testes em animais não existem de forma a suprir toda a demanda em tempo de medicamentos da humanidade, principalmente antibioticos.

  6. O texto é bom, mas com incongruências:
    “Não é culpa dos veganos se a ética médica especista faz testes em animais não-humanos, os quais são desnecessários e até perigosos para a saúde humana, pois induzem a conclusões enganosas.”

    Se os testes para desenvolvimentos de medicamentos ou procedimentos médicos são desnecessários e as conclusões dúvidosas, não há razão para esta discussão!!!!

    Só estamos discutindo isso porque os testes são válidos e os resultados positivosp para saúde humana.

  7. Olá Bruno, li o seu texto e o seu desabafo também, não sigo a dieta vegana e também não critico que a segue, conheço pessoas que são fiéis ao ideal e a filosofia a que se propõe a dieta que não se resume apenas a um modo de se alimentar. Toda vez que ouvimos falar de veganos vem em mente apenas alimentação e testes de cosméticos. Mas o uso de animais para a medicina não se resume a sacrifícios, um medicamento em teste leva até 10 anos para chegar ao mercado, por isso que vemos mais opções de similares e uma referência do que novos medicamentos nas farmácias. Vamos ao ponto que quero chegar, quando um medicamento esta para ser testado, saiu da parte de síntese do medicamento (em caso de medicamento sintético) parte-se para os testes in vitro, usando células que são retiradas de animais de qualquer espécie, a maioria de humanos saudáveis ou que contenham a doença sendo combatida, somente quando os testes determinam a eficácia do medicamento é que se pode passar para o próximo estágio, que é in vivo, quando se testa no animal espera-se que o mesmo seja um sucesso e que a cobaia aqui utilizada sobreviva e que o medicamento não cause nenhuma ou a mínima reação, infelizmente um colônia de células e um organismo complexo como os mamíferos comportam-se diferentemente e os testes nem sempre são o esperado. O número de cobaias também deve ser o mínimo possível caso contrário a pesquisa nem é aprovada, mas sim há o uso de animais, a última etapa é o uso de humanos em diferentes condições também, saudáveis, doentes e em estágio terminal praticamente. A grande dificuldade nesta etapa é que a resposta do humano depende de suas condições, do seu histórico de doenças, da sua idade, e de como seu sistema imune reage, é muito dificil acompanhar isto tudo num ser humano, já que pesquisador e paciente (cobaia) vivem a mesma proporção de tempo. Já em animais de pequeno porte com vida na faixa de 5 a 7 anos é muito mais fácil controlar todos os parâmetros que respondem a questões importantes se este medicamento é ou não eficaz, caso contrário teremos milhares de placebo no mercado e quando o sistema imune esta mais prejudicado placebo não ajuda, não ameniza o sofrimento do paciente e não traz nenhuma melhora. Além disso, pacientes mais críticos costumam não responder o alguns medicamentos sintéticos, e não é frescura, o mesmo medicamento ou hormônio produzido no organismo vivo, seja animal de grande porte ou mesmo bactérias e fungos tem quase 100% de perfeição, inclusive porque o próprio organismo possui um complexo sistema que praticamente confere e degrada tudo que esta defeituoso, enquanto que reatores e reações em laboratório não são 100% perfeitas e o próprio método de analisar já é uma fonte de incerteza, porque precisamos fazer alguma modificação para que haja uma resposta que possamos traduzir de alguma forma. Não estou puxando a sardinha para o meu lado, adoro a homeopatia, e já alerto que pelo menos 50% dela tem fonte animal, a acupuntura é indicada para todos os casos mais simples e pós tratamentos severos para aliviar o corpo é eficaz e milenar e só agora esta ganhando seu respeito aqui no ocidente. Massagens terapêuticas quando executadas corretamente tem grande eficácia. Outro fato que merece ser citado é o fato de que somente pessoas não saudáveis se dispõe a ser cobaia, e ser cobaia não é fácil, a casos de pessoas que simplesmente desistem, e os testes tanto in vitro como in vivo são essenciais, e mesmo assim um medicamento corre o risco de ser eficaz apenas em 90-95% como o é na maioria das vezes. Não sou uma amante de carnes, mas aconselho aos mais velhos a consumirem um dose diária de proteína necessária ao organismo nesta fase da vida. Tenho muitas dúvidas sobre a dieta vegana, não no Brasil, que é até simples de seguir quando se mora em cidades menores onde dá para observar de perto a origem de muita coisa não industrializada, mas de outras regiões mesmo. Outra coisa que devo salientar e é muito interessante saber, matérias-primas naturais são as mais trabalhosas e difíceis de se manter e processar, quando se trata de alimentos e fármacos, em caso de fármacos principalmente, se tivessem noção de quanto se joga fora na indústria farmacêutica devido ao inicio da degradação ou contaminação por bactérias em fármacos a base de produtos naturais, e aos amantes da homeopatia um alerta, indústria farmacêutica segue um rigoroso padrão de testes determinados pela anvisa, que devem analisar matéria-prima e produto final, enquanto que farmácias homeopáticas devido a própra estrutura que é menor recebe a matéria prima e já prepara o produto final e o disponibiliza. Sabemos que até uma planta plantada em solo mais ácido ou básico, ou mesmo com um quantidade de água menor ou maior durante o crescimento pode produzir produtos ativos diferentemente. E só para constar não sou farmacêutica, mas sempre que me colocam na parede sobre algo que coloca em cheque meus hábitos busco a fundo todas as informações e o fato de trabalhar em indústria facilita encontrar as informações verdadeiras e as fontes reais. Não vou colocar minhas dúvidas aqui, mas elas são muitas, e compreendem milhares de situações de rotina, e proporcional a minha condição monetária, fator que mais me intriga, porque na maioria das famílias que conheço e que são veganos a condição não é proporcional a maioria e esta seja um fator que tantos levam a criticar os veganos. A maioria critica com qualquer argumento puritano e preconceituoso, mas nunca parou para pensar de verdade sobre o assunto. Eu continuo onívora, não dispenso leite de jeito nenhum.

  8. Sou vegana e acho que não tem problema tomar remédios que foram testados ema animais, afinal, isso é uma questão de SAÚDE, é uma NECESSIDADE.
    Diferente de comer carne no nosso dia a dia, de usar cosméticos testados em animais, que não são uma necessidade, são apenas um desejo.
    Uma coisa é colocar os direitos dos animais na frente dos nossos DESEJOS. Isso é completamente errado.
    Outra coisa é colocar os direitos dos animais na frente das nossas NECESSIDADES. Isso seria simplesmente suicida, não teria sentido, o veganismo prega que nós devemos buscar viver ao máximo sem explorar animais, e não que não podemos explorar em caso de necessidade.

  9. POSSO FALAR POR MIM PRÓPRIO, SOFRI UM GRAVE ACIDENTE EM 15 DE NOVEMBRO DE 2O11, CAUSADO, POR UM CARROCEIRO IRRESPONSÁVEL, CONSIDERO-ME VÍTIMA, E TAMBÉM O CAVALO, QUERO FRIZAR BEM, NO HOSPITAL, RECEBI, VÁRIOS TIPOS DE MEDICAMENTOS, ENTRE ELES EPARINA, QUE É DERIVADO DIRETAMENTE DE BOVINOS, NADA DISSO MUDOU AS MINHAS CONVICÇÕES QUANTO AO VEGANISMO, CONCORDO COM RAFAEL JACOBSEN QUANDO ELE DIZ QUE O VEGANISMO É UMA BUSCA AFIM DE ACABAR COM EXPLORAÇÃO ANIMAL.

  10. que jeito esperto de enganar os veganos, afinal, uma vez que vc usa um medicamento testado em um animal, vc já estará explorando-o para sobreviver!! Continue usando homeopatia!!!

  11. creio que devêssemos testar os medicamentos nos veganos!! Aí teríamos teste convincentes e de bons resultados por pessoas que desejam o bem para todos os seres vivos!!!

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