Questão de Ética - Sônia T. Felipe

Somatofobia

Do grego, somatofobia quer dizer horror ao corpo do outro. A violência geralmente está carregada de somatofobia, pois o alvo do ato de destruição escolhido pelo agressor é o corpo do outro. Na tradição filosófica o corpo foi sempre alvo de considerações degradantes. Enquanto o espírito foi sempre louvado e elevado ao pedestal da mais refinada qualidade humana, o corpo justamente ficou no plano da animalidade, daquilo que evidencia a origem da forma na qual a vida em nós se expressou. Temos um design animal, uma anatomia e fisiologia animal, um psiquismo animal e uma racionalidade que só se configura através da dolorosa empreitada de impor limites contínuos àquilo que em nós é força vital material. 

Corpo e espírito, na tradição moral, são colocados em planos antagônicos. O que um busca, o oposto nega. Nessa lógica fomos todos formatados moralmente. Dela decorrem nossos conceitos do que seja algo bom, do ponto de vista moral (geralmente o que pode ser diretamente associado ao produto do espírito) e algo mau (o que estiver associado ao produto do organismo). Com essa forma de pôr os conceitos morais de bem e mal, temos então os preconceitos formados a partir de dicotomias e hierarquias morais.

Humano e animal, espiritual e corporal, forte e fraco, superior e inferior, homem e mulher, são conceitos dicotômicos. Mas o esforço para separar e segregar não para aí. Depois de separar cada um desses polos, a moral tradicional ainda os hierarquiza. Humano, espiritual, forte, superior ficam no topo de uma escala. Animal, corporal, fraco, mulher e inferior, na base dessa escala. A moral tradicional passa então a considerar digno de respeito o que está no topo, e digno de uso o que está na base. Nessa lógica temos historicamente estabelecido o domínio dos homens sobre o que é relativo ao corpo (biopolítica), aos animais, às mulheres e aos ecossistemas naturais.
 
Na violência que extermina o corpo se expressa o descaso e desprezo pelos seres classificados no pé da hierarquia. Mas a vida aparece com contornos tão variados e singulares, que simplesmente é um erro pensar que algum design ou formato no qual ela aparece possa ser eleito como superior, e outros como inferior. Cada ser vivo, em sua configuração própria, possui uma mente singular, e as experiências mentais de cada ser não podem ser comparadas na mesma medida em que o podem as experiências daqueles que possuem uma mesma bagagem genética e experiência ambiental.
 
A ética biocêntrica enfatiza o dever de respeito pela singularidade de cada uma das formas na qual a vida se expressa, no mundo animal, vegetal e humano. Não somos nem mais, nem menos. Nossas habilidades mentais não são responsáveis por nosso aparecimento em vida no formato que temos. Elas são importantes para que nos mantenhamos em vida. Mas, dessa perspectiva, todas as habilidades mentais singulares em cada espécie animal de vida também devem ser consideradas sob a mesma ótica. Ao final das contas, todas as singularidades também se encontram na mesma condição de vulnerabilidade: a ameaça de extinção do organismo no qual a mente singular pode configurar-se.

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