Vanguarda abolicionista – Marcio de Almeida Bueno

Dia Mundial Sem Carne ou ‘o populacho sabe o que quer’

Hoje, 20 de março, é para ser o Dia Mundial Sem Carne. Um dia, apenas, sem que haja um porco fervido dentro de tonéis nos matadouros, ainda zonzo e sem ter sido abençoado pelo toque final da morte rápida. Um dia sem galinhas penduradas pelas patas, de cabeça para baixo, nem vacas em pânico frente o cheiro de sangue no concreto. Sem baldes de sangue. Sem peixes se debatendo na rede, nem siris cozidos vivos em restaurantes frequentados por gente fina, elegante e sincera. Mas não foi o que eu vi.

Entre os próprios veganos/vegetarianos, desdém pela data, ou porque há um outro dia similar em novembro, ou porque o efeito é quase nulo. No cotidiano, lá fora, as coisas funcionaram da mesma maneira, e ninguém foi louco o suficiente para parar o que estava fazendo e retirar a carne de dentro de seu supermercado, de cima do seu prato ou da gaveta da geladeira. Tudo foi igual.

“Eles hesitam, se arrependem e às vezes assinam petições, mas nada fazem de sério ou de efetivo. Com muito boa disposição, preferem esperar que outros remediem o mal, de forma que nada reste para motivar seu arrependimento. No melhor dos casos, nada mais farão do que depositar na urna um voto insignificante, cumprimentar timidamente a atitude certa e, de passagem, lhe desejar boa sorte”. Palavras de Henry Thoreau, em A Desobediência Civil.

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Eu não vi uma professora levantar a voz para ensinar seus pequenos alunos que criar um ser senciente apenas para exercitar o paladar é errado. Eu não ouvi um parlamentar discursando sobre o estrago que a pecuária está causando na terra que pertence a todos nós, e que deixaremos para nossos descendentes. Eu não ouvi uma autoridade policial ou jurídica alertando que é crime “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos”, conforme reza a lei 9.605/98. Não li nenhum artigo de um nutricionista ou nutrólogo apontando os males causados pela ingestão de carne, nem mesmo relacionando esse péssimo hábito alimentar ao câncer, às doenças coronarianas ou mesmo ao simples mau-hálito.

Mas vi muita gente usando termos empolados como ‘sustentabilidade’, ‘uso racional’, ‘eco-_______’ – complete, leitor, com o termo que tiver ouvido de forma mais irritante nos últimos meses, ‘boi verde’, ‘desenvolvimento sustentável’, ‘sacola ecológica’ e ‘carne orgânica’, entre outros.

Às vésperas do Meatless Day, um boi é retalhado vivo em Pernambuco, pelo onipresente populacho, após ter sido atropelado por um caminhão. Lembro de uma notícia sobre saques à carga de um veículo tombado, enquanto o motorista ainda agonizava nas ferragens – então realmente o populacho é a maior manifestação de poder e potência neste país. É gente que sabe o que quer, e se mobiliza, ao contrário do que lamentava Thoreau.

Mas fico com a publicação de um ‘a pedido’ em jornal catarinense, na data de hoje, trazendo a foto de dois porcos usando ‘piercing’ no nariz – que serve para impedir o animal de fuçar, uma de suas atividades naturais, através da dor – e um brilhante texto do escritor Ezio Flavio Bazzo. A publicação foi custeada por gente que também, e apesar dos ventos contrários, sabe o que quer e se mobiliza.

Porcos e Guilhotinas

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