Vanguarda abolicionista – Marcio de Almeida Bueno

A Farra do Boi – 2

O gado bovino é o animal mais presente na casa das pessoas. Bife na geladeira, leite na xícara e couro no sapato – só para citar os mais cotados. Perderia para os insetos, mas esses entraram sem serem ‘convidados’, digamos assim. Enfim. Até descobri que algumas empresas têxteis estão produzindo camisetas que contêm lactose, enfiada de alguma forma na fibra. Mais um elo na longa corrente que une humanos e bovinos. Corrigindo, que prende os bovinos aos humanos, e ainda por cima pelo nariz.

Na Bíblia – esse livro a quem recorrem os interpretadores mais elásticos, compreende-se que o boi é uma espécie de vela a ser acendida para agradar alguém que se agrada ao ver um boi sacrificado. Talvez venha daí a sacralização do consumo de carne. “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo” – Êxodo 20:17, trecho que eleva o boi a uma condição similar à da mulher, do escravo e do imóvel. Um homem está no comando de tudo, mas o boi empatou em significação com suas demais propriedades, inclusive humanas.

Semelhante está em Êxodo 23:12, com “seis dias farás os teus trabalhos mas ao sétimo dia descansarás; para que descanse o teu boi, e o teu jumento; e para que tome alento o filho da tua escrava, e o estrangeiro”. Novamente, o boi está no patamar de dois humanos, o estrangeiro e o escravo, ambos subjugados a um homem que, de direito, lhes comanda inclusive o descanso. Xenofobia e sexismo presentes no glacê, com uma cereja de especismo no topo do bolo.

Milênios depois, um clássico da música gaúcha é Poncho Molhado, de José Hilário Retamozzo e Ewerton Ferreira, sobre um condutor de manada que se sente “irmão do gado”, naquele momento de solidão sob a chuva. “A tropa segue devagar mugindo tonta / Talvez pressinta que seu fim é o matadouro / E o tropeiro entristecido se dá conta / O boi é bicho mas tem alma sob o couro”. Mas não pense o leitor que, pela sensibilidade da composição, ela não seja cantada pelos que mais fazem do churrasco e da pecuária uma liturgia patriótica.

O curioso é que o título da música acabou batizando um sem-fim de CTGs – Centros de Tradições Gaúchas, cabanhas, estâncias, fazendas e afins. Algo como uma boate de prostituição se chamar ‘Maria da Penha’, mas isso só os veganos, ‘esses radicais’, é que percebem. Dane-se o boi, mais uma vez. Serve de vela para ser ardida em uma pedra de sacrifício, para ser ardida em uma grelha para se manter as tradições diárias.

E, tal qual a mulher adúltera, serve para ser apedrejado em público durante a Farra do Boi, já que, sabemos, ninguém ali pecou.

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