Educação e desenvolvimento – Henri Kobata

A dor de Marcos

Dr. Luís Fernando Lopes, um especialista da área de oncologia infantil do Hospital do Câncer de São Paulo, queria fazer uma parceria entre médicos e educadores para cuidar dos pré-adolescentes e adolescentes que tinham sofrido severas sequelas em razão do tratamento de câncer. Dizia Dr. Fernando que os médicos estavam fazendo a parte deles, mas que era preciso mais: para que o tratamento tivesse maior possibilidade de sucesso era preciso recuperar os jovens para a vida. Médicos e educadores teriam que fazer um trabalho conjunto.

Foi assim que tudo começou. Os médicos lutavam contra o avanço do câncer e os educadores passaram a lutar contra a dor da perda da visão, das partes do corpo, dos braços, das pernas e partes do cérebro. Entre aqueles meninos e meninas estava Marcos, de 15 anos.

Durante dois anos lutamos todos juntos. Compartilhamos as situações de vida, dividimos olhares sobre o cotidiano, procuramos enfrentar os preconceitos com coragem, torcemos juntos quando alguém faltava por causa do rigor das quimioterapias, comemoramos os retornos, mergulhamos no mundo da dor, rimos, criamos, reconhecemos e dialogamos com os medos e nos tornamos outros.

Numa manhã de sábado, Marcos contou para o grupo que queria dedicar a sua vida para os animais e para a natureza. Falamos sobre isso. O mundo da dor pessoal abria-se para o reconhecimento da dor de uma outra vida e estava se transformando em motivo do seu viver, em uma vontade atemporal. Que dias foram aqueles!

As preocupações com a vida dos animais estavam em tudo o que Marcos escrevia, falava e pensava. A responsável pelo projeto passou a aproximá-lo de veterinários, promoveu visitas onde existiam bichos, com as vidas com as quais ele se preocupava. Tempos depois, ela conseguiu que Marcos aprendesse a dar banhos em animais e empregá-lo em um pet shop.

Em 2007, recebi a notícia. Marcos tinha perdido a batalha contra o câncer. A família contou, serenamente, que Marcos tinha vivido três anos de felicidade.

Naquele mesmo ano, a nova diretoria do Hospital do Câncer de São Paulo decidiu realizar uma reforma administrativa para torná-lo financeiramente mais rentável e comunicou a todos que não haveria mais espaço para atuação de voluntários.

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