Dieta bélica


Desde a antiguidade védica (oito a dez séculos antes da nossa era) os textos médicos reconhecem a vinculação entre o que comemos e o que sofremos, em três diferentes níveis: no campo do que é propriamente formado pela matéria biológica, que chamamos corpo, no campo do que sentimos, âmbito das emoções, e no campo do espírito, onde operam as ideias e conceitos a partir dos quais definimos eixos para nossa existência (Ver David Frawley, Ayurvedic Healing).

A filosofia ocidental, ao contrário da filosofia hindu, afastou-se pouco a pouco da sabedoria ayurvédica, a ponto de desconsiderar completamente que, quando pensamos, o fazemos dentro do formato energético do que comemos. Embora não possamos encontrar essa associação de modo direto, a podemos conceber invertendo o roteiro, do que brota da ideia, até sua origem material na comida ingerida.

Na dieta padrão adotada pela maioria das pessoas nos centros urbanos ao redor do planeta, os alimentos são apresentados de modo que não se pareçam absolutamente com comida (ver Michael Pollan, O fim dos alimentos; e O dilema do onívoro). Comem-se coisas processadas e reprocessadas de tantas maneiras que, se nos perguntam o que estamos a comer, temos que parar, olhar para os resíduos no prato, juntar mentalmente seus fragmentos e recompor uma matéria até podermos dar-lhe um nome, recuperarmos seu conceito.

Comemos coisas acondicionadas em pacotes, sacos, latas e vidros. Comemos coisas processadas, desmontadas de sua estrutura orgânica original, transformadas com produtos químicos sintéticos, para que voltem a parecer matéria apetecível, oferecida na correria a palatos urbanizados, dessensibilizados. Comemos fragmentos de diferentes matérias, e dado que o sabor de tais fragmentos não induz nem seduz o comedor a buscá-las, os processadores dessa comida a aditivam com químicos artificiais tóxicos para o corpo e letais para os neurônios que operam nossa memória, consciência, lucidez, raciocínio lógico, disposição criativa. Desse modo, comemos milho em lata, que de milho já não contém nutriente original algum, ou dele perdeu-se mais de 50% no processamento. Comemos “múmia” de tudo o que antes era comida, de cereais, de frutas, de legumes, de oleaginosas. Há quem coma ainda “cadáveres mumificados”. 

Forçamos nosso sistema digestivo a processar matéria alimentar carregada de aditivos que não nada têm a ver com sua composição natural original, e carregada de químicos que destroem sua energia vital. Não é de espantar que vivamos tomados por afetos e emoções que nada têm a ver com nosso desejo de paz, alegria, vitalidade e disposição para interagir com outros seres vivos, humanos e não humanos. Comemos matéria destituída de energia vital. Vivemos física, psíquica e espiritualmente sem energia alguma (depressão).

Se no plano da matéria ingerida nada que nos oferecem em pacotes e latas contém nutrientes originais, nossas emoções também não resultam mais de experiências afetivas diretas. Distanciados da natureza e nutrição produzidas sem interferência tecnológica e bélica (agrotóxicos são subproduto da indústria bélica, ver Theo Colborn; Dianne Dumanoski; John Peterson Myers, O futuro roubado), nossas emoções mais primárias expressam aquela falta de energia vital que leva milhões de pessoas a buscarem nos fármacos o restabelecimento da química que seria natural o cérebro produzir, não fosse ele bombardeado com aditivos, entre os quais podemos citar o glutamato monossódico, o aspartame e a proteína vegetal hidrogenada, responsáveis pela morte das células neuronais que compõem o campo cognitivo de nossa mente (Ver Russell Blaylock, Excitotoxins; Carol Simontacchi, Crazy makers; Kelly Hayford, If it’s not food, don’t eat it!).

A partir de que pressupostos podemos esperar que um cérebro bombardeado com químicos artificiais funcione com vitalidade, energia, lógica e lucidez? A partir de que pressupostos podemos esperar que um corpo abarrotado de química industrial se mantenha saudável e apto ao desempenho de suas milhares de tarefas? Estamos alimentando nosso corpo, nosso coração e nossa mente com matéria sem forma própria, sem energia e sem vitalidade. Juntando-se todo esse artifício, compõe-se o somatório final: doenças físicas, quando o estrago chega a lesar tecidos e órgãos do corpo; psicossomáticas, quando a alma adoece por lesão repetitiva do estímulo tóxico sobre os tecidos neuronais responsáveis por nossas emoções básicas (ver Daniel Amen, Change your brain, change your life); e espirituais, quando nossas ideias já não têm força capaz de deter o malefício causado pela dieta bélica à qual fomos condenados nos últimos quarenta anos. Se queremos a não violência, precisamos começar por uma das práticas mais repetidas a cada dia, que é o ato de comer (ver depoimento de Marly Winckler, documentário A carne é fraca, do Instituto Nina Rosa).


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