Tamara Bauab

Patriarcado e o estupro da natureza

Por Tamara Bauab

O patriarcado tem se mostrado como uma espécie de doença que impregna nossa sociedade e que vem de longe, arrastando-se há séculos ao longo da história humana. Há, em meio a seu contexto, uma profunda relação entre a exploração da natureza e a exploração feminina, e tal hierarquia promove um longo império de destruição e sofrimento.

Mulher e natureza são elementos profundamente ligados e universalmente desvalorizados pelo patriarcado, desde que este passa a introduzir a desigualdade e o domínio sobre todas as formas de vida. A domesticação dos animais e a apropriação da terra são expressões da organização social racionalista que prioriza o gênero macho controlador sobre o gênero feminino, visto como selvagem, intuitivo e sexual.

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A hierarquia patrilinear é, por si só, a energia masculina subjugando a energia feminina da natureza – que se expande pelo universo numa forma de organização que é independente do homem, o qual assumiu uma cegueira moral por não suportar a realidade de sua insignificância.

A civilização, da forma como a presenciamos, tem sido definida como um “levante contra a natureza” e o homem como o “domador” da mãe-Terra. Um longo e reiterado estupro. A humanidade tem agido como um câncer no organismo planetário, violentando e saqueando a mãe-Terra.

As afirmações de Camille Paglia, autora que paradoxalmente insiste em se colocar como “feminista”, traduzem tal ponto de vista misógino – “Quando vejo um guindaste gigante se movendo, eu paro em respeito e admiração, como alguém faria a uma procissão religiosa. Que poder de concepção; que grandiosidade; este guindaste nos remete ao antigo Egito, onde a arquitetura monumental foi primeiramente imaginada e executada. Se a civilização tivesse sido deixada nas mãos femininas, nós estaríamos ainda vivendo em cabanas de palha.”

No entanto, o caminho tomado pela humanidade, sob a guia de mãos masculinas, tem se mostrado satisfatório para a própria humanidade? É o caminho da opressão, da exploração e não tem se mostrado eficaz, haja vista o atual estado da civilização humana e as condições ambientais.

Partindo do princípio secular que tem sido sustentáculo da sociedade cristã, observamos a passagem bíblica a respeito da Queda, na qual a culpa da traição e expulsão do Paraíso recai com totalidade sobre Eva e a Serpente: uma mulher e um animal – curiosamente os seres que têm sofrido uma exploração milenar desde o emergir do patriarcado, até os tempos atuais, em que ainda vigora.

Essas posturas patriarcais, em prejuízo da natureza e das mulheres em geral, já vêm sendo contestadas. A humanidade reconhece cada vez mais que tal pensamento linear, racional e mecanicista, tipicamente masculino, levou-nos a cometer atos brutalmente antiecológicos, em que as ferramentas fálicas de destruição propagaram o estupro do universo feminino, gerando um planeta doente onde a própria sobrevivência humana passa a ser ameaçada.

Somente a partir da ocorrência de tantos desmandos humanos contra o ambiente é que notamos o tamanho do buraco provocado pela ganância. Torna-se cada vez mais urgente a adoção de um novo paradigma, de uma nova dimensão de conceitos que transcendam a relação andro-antropocêntrica de exploração e predação sobre a natureza. Precisamos de uma profunda transformação cultural, algo que se esboça a partir daquilo que se pode denominar consciência ecológica. Opor-se à exploração animal e feminina é um ato de amor próprio, de escolha pela liberdade de dizer não, de não se deixar massificar pelo sistema. Podemos, então, escolher uma vida não brutalizada, não violenta.

Tamara Bauab é bacharel em Comunicação Social pela Fundação Cásper Líbero, licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade do Vale do Paraíba (UNIVAP), mestre em Ciências Biológicas – laboratório de Síntese Orgânica IP&D – Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento (UNIVAP), especialista em Biologia Celular e Histologia Geral – Departamento de Morfologia da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina, autora do livro Vítimas da ciência – Limites éticos da experimentação animal, terapeuta Ayurvédica formada pela School of Ayurveda e Panchakarma em Kannur Kerala Índia, diretoa científica do grupo VEDDAS – Vegetarianismo Ético e Defesa dos Direitos dos Animais e Sociedade, e diretora de projetos do Instituto Abolicionista Animal.

2 COMENTÁRIOS

  1. Adorei o texto, Tamara.
    É isso mesmo. Ainda somos exploradas pelo machismo. Como não perceber que somos vistas como inferiores por essa sociedade, assim como os animais?
    A mãe-Terra é a coisa mais sublime que conhecemos. Há nela poesia, grandiosidade, generosidade, amor! É dela o lado intuitivo do ser humano. Intuitivamente somos éticos. É esse lado racional que é capaz de destruir, cometer atrocidades, sufocar o outro.

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