Veganismo e iniciativa social pelos direitos dos animais


foto_ricardo_laurinoRicardo Laurino é empresário e vegetariano há 17 anos. Este mês assumiu a coordenação da SVB – Sociedade Vegetariana Brasileira – em Curitiba e pretende dar continuidade às atividades de promoção, conscientização e apoio ao veganismo, opção que adotou por respeito aos animais em 2001. Envolvido na realização de seminários e ciclos de palestras sobre vegetarianismo, ele teve uma importante participação na realização de um projeto pioneiro de popularização da alimentação sem crueldade: a Feira Vegetariana. Com duas edições de grande sucesso de público no segundo semestre de 2008, a feira de rua conquistou um espaço permanente na agenda da Secretaria de Abastecimento e passará a ser semanal a partir de março de 2009. Uma outra novidade é que deverá ser levada para outras cidades brasileiras. Preocupado com as questões éticas relacionadas aos animais, Ricardo Laurino, atualmente, finaliza um livro de ficção sobre o tema. É co-autor do artigo “Amazônia e a invasão pecuarista”, disponível no site da ANDA. Em entrevista exclusiva concedida à jornalista e colunista da ANDA, Cynthia Schneider, ele fala sobre a iniciativa da Feira Vegetariana, sobre o veganismo, os novos projetos, entre outros temas. Acompanhe.

ANDA – Em 2008 você esteve envolvido numa iniciativa pioneira no Brasil, que foi a Feira Vegetariana de rua. Como foi participar dessa experiência?

Ricardo Laurino – A Feira começou de uma forma bem interessante. Foi um membro da SVB que numa das reuniões comentou que seria interessante, num determinado dia do ano a gente fechar uma rua e fazer uma Feira com pratos vegetarianos. O termo nem foi feira, seria um evento vegetariano numa rua fechada. E aquilo ficou na minha cabeça desde 2006, até que o nosso grupo, em outras oportunidades, pôde conversar sobre o evento e a idéia da feira voltou. Mandamos para a prefeitura o pedido de um local na cidade para fazer uma feira, onde teríamos apenas produtos vegetarianos. Desenvolvendo a idéia, chegamos à conclusão de que seria interessante fazer uma feira vegana, já que muitos dos integrantes do nosso grupo são veganos. Obtivemos uma resposta da prefeitura nos convocando para várias reuniões, até porque a prefeitura não tinha conhecimento sobre o tema. A Secretaria de Abastecimento de Curitiba identificou logo uma característica diferente de todas as feiras conhecidas, algo com características inéditas. Não conhecíamos uma feira assim no Brasil: com barraquinhas de alimentos veganos preparados artesanalmente, aberta ao público, num local onde qualquer um que passa pode parar e conhecer. Fizemos um primeiro evento no dia 23 de agosto e até a Secretaria imaginava que seria uma pequena feira. Mas teve um retorno enorme e nas semanas seguintes a prefeitura recebeu vários contatos para que a feira fosse reeditada. Isto aconteceu dois meses depois, também com grande público. Nós recebemos o convite para que, a partir de 2009, possivelmente em março, a Feira Vegetariana – que na realidade só oferece produtos veganos – ocorra todos os sábados. Pra nós do movimento foi uma surpresa muito agradável. Na última feira tivemos um público de mais de mil pessoas, com cobertura das principais emissoras de televisão, com entrevistas ao vivo e uma repercussão muito interessante e agradável para o movimento.

ANDA – Quais são os seus interesses e prioridades quanto às atividades pró-veganismo a partir de 2009?

Ricardo Laurino – Os objetivos que eu tenho agora, mais próximos, são poder fazer a Feira Vegetariana que aconteceu em 2008 e expandir, através do Departamento de Feiras da SVB, o evento para outras cidades para que a gente possa estar mais perto do público. Por intermédio da feira também gostaria de atingir outras metas de longo prazo, como ampliar o debate sobre vegetarianismo, ainda mais ativo do que temos feito hoje.

ANDA – Você é casado e tem filhos. Como é sua jornada vegana e como sua família está envolvida nesta atitude?

Ricardo Laurino – Minha esposa é semivegana e meus filhos vegetarianos. Em casa, nossa alimentação é vegana. A minha convivência com a família mais próxima, pai, mãe, irmãos é excelente. Eu não faço desse assunto um tabu, muito pelo contrário. Eu acho importante que a questão da alimentação não seja velada. Isto acaba atrapalhando o desenvolvimento da sociedade. Eu acredito que mesmo através de brincadeiras e qualquer tipo de assunto que leve ao vegetarianismo e ao veganismo é sadio para a causa. Em toda oportunidade que eu acho que o assunto pode ser bem encaixado eu converso, brinco, aceito brincadeiras para que o assunto fique mais próximo da realidade das pessoas. Assim elas percebem que é possível e saudável viver dessa forma. Eu tenho familiares que gostaram muito da idéia e que viraram vegetarianos e outros que vão contra ferrenhamente. Mas o que não podemos é deixar que o assunto caia no esquecimento.

ANDA – O veganismo, o vegetarianismo e a defesa dos animais são regidos – em teoria – por objetivos muito próximos. Você acha que há uma mobilização social pelos direitos dos animais generalizada ou ainda predominam movimentos isolados?

Ricardo Laurino – Eu acredito que, se compararmos com outros movimentos sociais, a causa dos direitos animais poderia estar melhor. Mas se pensarmos no próprio movimento, como estava alguns anos atrás em comparação a hoje, já demos um grande passo. Percebo que hoje os grupos conversam mais, as divergências são mais conversadas. E também não acho que as divergências são más, o movimento acaba até crescendo com as divergências. Acho, sim, que é possível nos organizarmos mais, mas não avalio de forma negativa. O processo de mobilização pela causa animal está se dando rapidamente.

ANDA – Como você vê hoje a fundamentação teórica do debate sobre veganismo e vegetarianismo?

Ricardo Laurino – Há várias frentes nesta discussão. Eu costumo dizer que os direitos dos animais podem ser comparados com o direito do ser humano. Muitas vezes são traçados parâmetros com o racismo, até pela adoção do termo especismo. Muita gente acredita que o ser humano aboliu a escravidão e deu passos largos contra o racismo devido a uma necessidade econômica. Eu traço um paralelo disto em relação à questão ambiental, hoje uma importante ferramenta de argumentação em favor dos direitos dos animais. A relação entre a exploração animal e a depredação do meio ambiente está clara, principalmente na alimentação. Quando se debate o ambiente, eu destaco esta dualidade: a economia em relação ao racismo e o meio ambiente em relação ao especismo. Se a gente olhar bem, existe uma semelhança grande nestes dois movimentos. E tem também a questão da saúde, que tem preocupado mais os profissionais desta área, não apenas no investimento em pesquisas para buscar remédios, mas para estudar a prevenção e a saúde anterior à doença. São várias as facetas do veganismo e do vegetarianismo. A minha bandeira principal é o direito animal, que por si só é um debate que vem ganhando muita força e contornos de um debate social, não de grupos isolados. A maioria das pessoas engajadas neste debate já ouviu falar sobre o tema, conhece pessoas que são envolvidas com a causa, ou que já se tornaram veganos e vegetarianos. Eu acho que o debate está subindo de nível e crescendo pelas circunstâncias que a sociedade está vivendo.

ANDA – A palavra de ordem hoje é a racionalização no uso dos recursos ambientais como forma de sustentabilidade. Você é pesquisador do tema, já fez várias palestras e escreveu artigos científicos sobre isso. De que forma o veganismo pode contribuir para a sustentabilidade do planeta?

Ricardo Laurino – O meu foco de estudos neste tema é voltado para a questão da percepção que as pessoas têm sobre a sustentabilidade. Elas encontram neste termo uma forma de se sentir melhor como se, por não participarem do debate, estivessem “fora da moda”. Eu acredito que precisamos encontrar uma conexão entre o todo, não só porque se o meio ambiente continuar sendo devastado nós vamos ter problemas para nos manter vivos, mas porque somos mais uma espécie do planeta. A partir do momento em que abandonarmos a visão para encontrar na sustentabilidade um conceito mais profundo que signifique respeito e convivência com a própria e com outras espécies, as coisas vão fluir de uma forma mais natural. Eu acredito que a base da sustentabilidade com relação ao vegetarianismo não é propriamente o meio ambiente, mas a relação com os seres vivos. Se tivermos uma atitude de respeito com os seres vivos do planeta, esta proposta deixa de ser uma necessidade e vira uma conseqüência.

ANDA – Você está envolvido com projetos e estudos sobre veganismo e ética. Que resultados você destaca na agenda de eventos de conscientização sobre o tema da qual você participou em 2008?

Ricardo Laurino – Penso que hoje temos duas frentes de ação. Primeiro oferecemos aos vegetarianos, veganos e àqueles que já estão envolvidos na causa informações para possam sustentar melhor esta opção. Muitas vezes o vegetariano tem a sensação de que aquilo é algo de positivo para os dias de hoje, mas acabam faltando argumentos. Procuramos trazer para este grupo uma visão bem fundamentada daquilo pelo que elas optaram. Fazemos seminários para vegetarianos, fazemos palestras para grupos organizados e não organizados, buscamos contatos por meio de ciclos de palestras para trocar idéias e também aprender com estas experiências. Na outra frente de atividades estão os eventos voltados para grupos de pessoas que têm interesse ou curiosidade para disseminar esta informação e estimular este debate. Para 2009 o interesse do nosso grupo é buscar estes dois lados: os vegetarianos e também quem não é da causa, para que possa conhecer melhor e ter informações para fazer uma opção consciente. A gente percebe que muita gente acaba não optando pelo vegetarianismo por falta de conhecimento. O maior exemplo disto é a tão temida falta de proteína, pois muitos acreditam, de forma equivocada, que vão ter problemas de saúde se eliminarem os produtos de origem animal do seu prato.

ANDA – Há hoje um importante movimento teórico no sentido do resgate da ética na convivência com os animais; como você vê a conceituação filosófica atual sobre a ética na alimentação?

Ricardo Laurino – É fato que o ser humano encontra hoje diversos reconhecimentos em relação aos direitos animais. Este é hoje um debate com o qual a sociedade brasileira convive muito. Recentemente um programa da maior emissora de TV brasileira fez uma enquete para saber se as pessoas eram a favor ou contra animais em circo e 96% das pessoas responderam ser contra. Isto era inimaginável há 10 anos. Hoje temos uma sociedade enxergando direitos nos animais de circo. O direito de ter uma vida natural, de ter uma relação com a sua espécie, de não ser enjaulado, de não ser obrigado a ser artista para entreter pessoas. Se estendermos isto à nossa alimentação, vemos que há uma relação neste sentido. Muitas das respostas que se dão para não parar de comer carne é que as pessoas acabam perdendo algumas oportunidades de lazer e convivência. As pessoas enxergam a alimentação como uma forma de lazer. Será que o nosso lazer de ver um animal sendo humilhado é mais importante ou é mais importante o respeito que a gente deve ter em relação a ele? E na alimentação este conceito não muda. Somos perfeitamente capazes de viver saudavelmente com alimentos que nada têm a ver com a exploração animal. Mas por que muitos continuam? Pelo prazer, pelo lazer, não pela alimentação. Eu dei o exemplo do circo, mas em termos éticos há muitos outros. Os animais são passíveis de sofrimento, de ter necessidades e nisso é possível identificar mais semelhanças do que diferenças com o ser humano. O problema é que, infelizmente, ainda muitas pessoas acabam fazendo com que as diferenças pareçam maiores do que na realidade são. Isto faz com que a postura ética seja deturpada em relação aos animais.

ANDA – A mídia ainda insiste em discursos a favor da alimentação com carne e consumo de produtos de origem animal que pressupõem cerceamento dos direitos dos animais. Há um projeto de lei em tramitação no País que prevê a proibição de publicidade direcionada às crianças. Você acha que este é um passo favorável à causa dos direitos animais?

Ricardo Laurino – É preciso lembrar que a mídia é controlada por pessoas também. Se eu estiver certo, o ser humano começa a viver hoje uma relação de mudança que busca reconhecer os direitos dos animais. A partir do momento em que a sociedade reivindica isto de forma ética e moral, a mídia também vai refletir isto em sua publicidade. Por hora, eu acho que a questão animal vai ser muito pouco atendida com a regulamentação da mídia. Isto porque a maior parte da sociedade ainda tem um conceito de que as pessoas e as crianças precisam de alimentos de origem animal. A partir do momento em que a visão em relação aos animais se transforme, esses projetos de lei vão acabar esbarrando na questão da alimentação. Isto com certeza levará a uma mudança de consciência sobre o vegetarianismo e o veganismo, até na hora em que os profissionais forem criar uma campanha publicitária.

ANDA – Você está escrevendo um livro de ficção que tem como tema o veganismo. Como chegou a esta idéia de levar o tema para a narrativa literária?

Ricardo Laurino – A minha idéia há muito tempo era escrever um livro. Não sou um escritor muito experiente, mas a minha intenção é justamente ir contra a privação dos direitos animais e mostrar esta nova forma de enxergar o status dos animais. Eu já estou envolvido nisto há algum tempo e pretendo trazer este debate para a ficção. Não é um documentário ou uma visão teórica. Os personagens deste livro acabam envolvidos em uma trama onde está presente todo este debate sobre o direito animal, de forma que as pessoas que não têm acesso às informações da causa animal, mas que gostam de literatura, possam ter acesso a isto pela ficção. Acredito que dessa forma posso atingir não só vegetarianos e veganos engajados no movimento, mas também pessoas que não tenham conhecimentos específicos, para que possam perceber o que esta visão nova representaria no dia-a-dia.

ANDA – Há motivos para sermos otimistas quanto à causa dos direitos dos animais?

Ricardo Laurino – Eu não tenho a menor dúvida quanto a isto. A sociedade vive um momento em que cada vez mais este debate está presente. Eu não sei exatamente quando, mas sinto que o ser humano, a nossa sociedade, cada um de nós, cada vez mais cria consciência em relação ao que é feito hoje de forma injusta. Os animais não merecem o que eles vivem hoje. Eles merecem algo muito melhor de cada um de nós. E eu tenho uma visão muito otimista, apesar de ainda ver coisas absurdas acontecerem. Nós estamos chegando num limiar. E todo limiar se caracteriza por situações agudas. E é isso que a gente está vivendo hoje. Os animais estão sofrendo de forma aguda porque estamos chegando ao limiar desse sofrimento. Daqui em diante a gente vai ter um regresso e cada vez mais eles vão ser respeitados, vistos como seres merecedores de respeito e de uma vida plena e não desta vida maluca que o ser humano está impondo.


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