Sérgio Greif

Seu filho vale menos que um rato?

Por Sérgio Greif

Qualquer ser humano normal considera que a vida de seu próprio filho vale mais do que a vida de um rato. Mas é verdade também que qualquer ser humano normal considerará a vida de seu filho mais valiosa do que a vida de uma outra criança. Isso porque conferimos mais valor àquilo de que gostamos mais. Essa questão de preferência, porém, não se reflete no valor real dos indivíduos. Nenhum ser humano normal mata uma outra criança porque seu próprio filho está precisando dos órgãos. Ninguém atualmente tenta justificar racionalmente a utilização de crianças africanas para testar medicamentos que serão comercializados nos Estados Unidos com base em argumento do tipo “Seu filho vale menos que uma criança africana?”.

Para mim meu filho vale mais do que o filho do meu vizinho, mas isso não me dá direito algum sobre o filho do vizinho. Então por que esse argumento vil, malicioso e injusto é utilizado para tentar justificar o uso de animais em laboratórios? A única resposta que me ocorre é a de que existem poucos argumentos plausíveis a favor da experimentação animal. É necessário, de fato, apelar-se para esses, correndo-se o risco de simplesmente não se conseguir justificá-la. Trata-se de uma estratégia manipulatória de desespero e mesmo cientistas de renome não temem usá-la.

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Existem ainda outras linhas de defesa baixas da experimentação animal. Uma delas diz que sem a pesquisa em animais a ciência ficará estagnada. Isso é condicionar todo o pensamento científico a uma única metodologia. Caso isso fosse verdadeiro, se isso de fato assim o fosse, não seriam necessários cientistas nos centros de pesquisa, bastariam técnicos capazes de seguir protocolos experimentais. Isso seria também negar todas as descobertas científicas realizadas sem animais, baseadas na observação de fenômenos em situações de campo, ou seja, praticamente todas.

Outra linha trata de colocar os ativistas pelos direitos animais como fundamentalistas irracionais, terroristas, culpados por todo o atraso da ciência. Essa tentativa de retratar ativistas como criaturas obscuras e medievais, de desumanizá-los ou compará-los a nazistas nada mais é do que uma estratégia de desespero. Quando acusações reais não são possíveis, apela-se ao irreal. E cientistas mandam para si mesmos cartas ameaçadoras e se colocam como mártires pela ciência, e apesar de tudo continuarão com seu importante trabalho, pelo bem da humanidade. Mas se há algo de medieval e nazista em toda essa história isso ocorre quando se acendem fogueiras para queimar um inimigo que não existe, ou quando se utilizam argumentos de cunho supremacista para justificar o injustificável, como a pergunta que dá título a esse artigo.

Mesmo que cientistas sejam, eventualmente, ameaçados por um ou outro ativista, essas ameaças refletem a única manifestação contrária ao que eles praticam diariamente contra criaturas tão sencientes quanto seus próprios filhos. As ameaças são atitudes de desespero de pessoas que sabem que não podem apelar para as leis nem a nenhuma força legal. Esses cientistas são culpados, não são vítimas como querem se colocar. Ainda assim, ameaças, mesmo quando existem, quase nunca são levadas a cabo.

Nossa cultura nos faz conferir valores diferente para vidas animais e humanas. Mas ela também nos faz conferir valores diferentes para as pessoas que conhecemos e as que não conhecemos, para povos com os quais temos boas relações e para aqueles aos quais somos indiferentes, para animais com os quais simpatizamos e para aqueles com que não simpatizamos. Essas questões de preferência pessoal nada têm a ver com o valor real da vida. Quando cientistas de renome fazem uso dessa psicologia para tentar justificar seus crimes, quando esses argumentos são os melhores que existem para defender a experimentação animal, fica evidenciado que a vivissecção é uma instituição em ruínas.

Sérgio Greif é biólogo, mestre e ativista pelos direitos animais. Formado pela UNICAMP em 1998, é co-autor do livro “A Verdadeira Face da Experimentação Animal” e autor de “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação”. Entre outros assuntos, Sérgio se interessa por bioética, gestão de sistemas de saúde e métodos substitutivos ao uso de animais na ciência e ensino.

6 COMENTÁRIOS

  1. Concordo plenamente.
    Já ouvi muito esse típico ‘a vida do seu filho vale mais que a de um rato’? E fiquei sem argumentos. Acabei de encontrá-los. É isso mesmo: aqueles que nos são queridos valem mais do que os desconhecidos.
    Mas isso é relevante apenas para os envolvidos.
    Num contexto geral somos todos absolutamente iguais. Nossas vidas valem muito sim: minha, do meu filho, do ratinho, são todas igualmente valiosas.

  2. Fico sem saber o que dizer, quando vejo tamanha falta de conhecimento, ainda mais de uma pessoa com formação de pós graduação nível mestrado.
    É facil jogar com as palavras e induzir o leigo a acreditar em certas idéias.

    Os pesquisadores não maltratam os animais experimentais, nem tão pouco se usa mais experimentos que causam dor, ansiedade ou outra perturbação aos animais.

    Pessoas, assim que acreditam nisso, à algum tempo estão com estes textos agressivos em alguns sites, estimulando a população leiga a ter uma aversão contra as pesquisa, inclusive comparando pesquisadores sérios a nazistas, sem no entanto explicar que existe a necessidade de estudos sim em animais e que alguns testes só podem ser feitos neles.

    É triste ver que estes que se dizem ativistas, estão tão cegos pelo que acham certo, que estão se tornando terroristas virtuais e reais, visto os ataques a profissionais, instituições e até churrascarias divulgados pelo grupo Vegan, que inclusive vem sendo investigado pela Polícia Federal.

    Vejam só que hilário, alguns ativistas tem que atacar churrascaria com tinta vermelha e sair correndo como se fossem talibãs defensores do mundo.

    Que pena que não tenhamos pessoas inteligentes envolvidas nestes assuntos, que estudem, debatam civilizadamente e que aceitem as diferenças existentes.

    Felipe Guimarães
    Jornalista Científico
    Rio de Janeiro-RJ

    • Concordo com o que vc disse. Menos com a parte que disse que não se usam mais experimentos que maltratam os animais. Existem sim, e é nesses que deveríamos ficar atentos em fiscalizar, pq temos condições de fazer experimentos sem maltratar.

      Mas com certeza algumas pessoas se inflamam muito e começam a divulgar informações erradas a partir de algo chocante que viram e não procuraram saber mais sobre.
      Acho muito incoerente alguém querer argumentar que QUALQUER uso de animais em experimentos científicos é abominável, enquanto não vê problema em comer carne, pq é “natural”. Os animais criados para abate muitas vezes sofrem muito mais do que animais de laboratório.

      Além disso, pq sacrificar uma vida animal para comer é aceitável (cujo carne vai alimentar 100 pessoas e depois virar cocô), mas sacrificar um animal para obter um conhecimento científico que vai ficar para sempre com a humanidade e poderá salvar milhares de vidas no futuro (tanto humanas quanto animais) é errado?

  3. se é necessario que usem animais para testar remedios para salvar minha vida, dos meus filhos , netos , mae, irmã e pessoas em geral eu sou a favor, quem é contra queria ver se um parente tivesse cancer e teria que usar remedios testados em animais., não autorizaria o uso?. antes que me malhem tenho 3 caes adotados e amo eles

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