Anderson Reichow

Animalidade desonerada

Enxergar nos animais um “outro” é um passo necessário para o rompimento com a construção articulada em termos de sujeitos em relação a objetos, de homem versus animal. Conforme afirmamos anteriormente, a identificação da animalidade viabiliza esse exercício de percepção, o qual tanto é mais adequado ao homem quanto é mais justo com os outros animais. Essa compreensão sustenta um olhar mais autêntico, pois já sabemos o que de desmandos esse protótipo deformado da classificabilidade provocou. Somente superando esse modelo é que temos condições de avançar e chamar a ética para tomar o seu assento, reclamando uma postura mais exigente.

A mania do humano em objetificar, em transformar tudo que lhe é externo e diferente em objeto, comandou as suas relações com quaisquer outros que não fossem também donos de uma face – de um rosto humano. Tudo foi ou é “coisa” na natureza, mesmo o que é vivo. A maneira absolutamente irresponsável com que se dispôs da vida no planeta já dá mostras irrefutáveis de um destino que prepara conseqüências aterradoras para aqueles atos coisificantes de outrora e de hoje. Lembremos, ademais, que a própria humanidade já viu seu holocausto e entre nós ainda há sexistas e racistas.

Na base desses tantos fenômenos está sempre a negação da constituição de um “outro”. Também invariavelmente presente, está a refutação de generosidade que abraça a todos do mesmo gênero.

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Portanto, o imperativo que advém desse contexto só pode ser lucidamente construído nos seguintes termos: deve-se reconhecer a animalidade do outro como a gênese de um estabelecimento ético, o qual não se funda nem na capacidade comunicativa, nem na reciprocidade, nem mesmo na titularidade de interesses tidos por iguais. A generosidade não requer essa dimensão de igualdade para se situar, e também prescinde de qualquer linguagem ou intercâmbio. Não precisamos saber exatamente quais são os interesses que cada animal no mundo ostenta, e qualquer tentativa de estudá-los pode incidir em antropomorfização. A animalidade já é antevista, e não atrai ônus nenhum para si. O ônus sempre será daquele que, maníaco pela ontologia, tentar subsumir os animais à sua representação sobre eles.

Esse ônus que acabamos de referir, com efeito, adquire duas conformações. A primeira, puramente individual, volta-se àquele indivíduo que se põe a questionar a animalidade de um ser, e sua administração consistiria em provar o alegado. Porém, já se adianta a verificação empírica de que cada outro animal reduz-se e amplia-se numa modalidade de existência distinta, nem sempre alcançável à teorização taxonômica produzida a partir do logocentrismo. A segunda, esta uma conformação coletiva, impõe a responsabilidade de admitir o insucesso total e definitivo que pode levar, quem sabe, à extinção da nossa própria espécie, e que seria fruto do delírio megalomaníaco de a tudo classificar e de tudo dispor.

A par disso, cremos, as necessidades de pensar a condição animal num viés de igualdade, como sugerido por Peter Singer, ou a partir da subjetividade proposta por Tom Regan, caem por terra. A animalidade é inescusável, em todo caso. Salta aos olhos, emergindo de cada ser, e chamando a todos nós para comunhão.

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