Um encontro entre duas vidas

silvana
dezembro 18, 2008

Brasília é uma cidade que tem relações emocionais frágeis no olhar de quem tem como matéria-prima de trabalho os sentimentos, valores e o sentido de viver. As pessoas dessa cidade confundem relações políticas com relações afetivas. Mas, nessa semana, por um momento, uma cena mudou a minha impressão sobre a capital do país. Em uma das ruas isoladas, uma moça grávida, de barriga enorme, estava de joelhos, com quase a metade do corpo enfiada num bueiro. Ela estava ajudando um gato doente e fraco oferecendo água e comida. Tinha forrado o chão com jornais limpos e servia a refeição em tigelinhas coloridas. Estava sendo preparado para ser levado ao hospital veterinário.

A moça me contou que o gato tinha sido maltratado por crianças e por isso se assustava até com vozes infantis mais distantes. Enquanto me explicava isso, uma das mãos acariciava a barriga e a outra fazia carinhos no gato.

Lembrei a mim mesmo que essa relação simples, generosa e carinhosa com as vidas é uma das vivências valiosas que andam ausentes das escolas e das famílias e que é preciso resgatá-las com urgência. É algo que não custa dinheiro e quase nenhum investimento em materiais. É preciso apenas, por parte dos educadores, riqueza emocional, valores, disposição para dar exemplos de atitudes, muitos exemplos, e preocupação em ensinar as conexões que existem entre situações, fatos e coisas. A questão é como tornar essa relação parte da linguagem pedagógica.

Alguns educadores da Dinamarca e da Noruega têm conseguido resultados excelentes com a ajuda inestimável dos animais. Com a aproximação orientada dos jovens com os bichos, eles passam a compreender com clareza as suas responsabilidades com a vida do outro, o valor do amor incondicional e ganham a percepção de quanto é egoísta e traiçoeiro o sentimento de que a violência maior é aquela cometida contra os seres humanos. Enfim, adquirem um olhar sobre os fenômenos sociais sob a perspectiva da vida como um todo e não apenas sob a perspectiva humana. Passam a perceber quantos sofrimentos são provocados e quantas vidas são sacrificadas, todos os dias, em nome da saúde humana e para satisfazer a vaidade e o prazer alimentar. E passam a refletir sobre para quê serve a tecnologia moderna e todo o conhecimento que a humanidade acumulou durante séculos, se ainda mantemos as mesmas práticas da antiguidade.

A iniciativa dos educadores daqueles países nasceu da percepção de que a relação atual entre homens e animais estava denunciando que algo estava muito errado nos caminhos da sociedade. Decidiram voltar as suas atenções para os animais e perceberam o que eles tinham a ensinar às crianças e aos jovens. E assumiram o papel de mediadores para o encontro entre as duas vidas, como era de se esperar de educadores atentos ao seu papel no mundo.


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