Eu sou animal – Dagomir Marquezi

Bandidos do picadeiro

Se alguém ainda tem dúvidas se animais devem participar de circos, deve ler o longo artigo da advogada (e colunista da ANDA) Renata de Freitas Martins para a revista Pensata Animal. Lá você encontra a história da atividade circense e a razão de os animais fazerem parte dela.

Desde a antiguidade, gregos e romanos exibem animais selvagens para provar que os homens são superiores às “feras”. O princípio por trás dessa atitude é mostrar que a natureza não precisa ser respeitada – deve ser dominada e nos servir. É uma atitude que possui uns milênios de idade – e continua idêntica hoje aos tempos do coliseu romano. Alguns países avançaram. Outros não.

A imagem clássica de um domador, de chicote na mão, obriga leões, tigres e elefantes a se humilharem em truques tolos sobre banquinhos. Ou os força a desafiar os próprios instintos básicos, saltando em rodas de fogo. Mesmo de um ponto de vista humano, é um espetáculo medíocre, manjado, que gera aplausos sem entusiasmo da platéia. Não entusiasma porque é previsível.

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Se os animais sumissem dos circos, pouca gente iria notar. O circo padrão dos dias de hoje, o Cirque du Soleil, usa um único animal como atração: o Homo sapiens. Os circos sem dúvida devem sobreviver como uma forma tradicional de cultura e espetáculo. Mas sem animais, domadores e jaulas. Animais são caros, dão trabalho, exigem manutenção, complicam o transporte. De vez em quando algum deles, enlouquecido de fome, captura e devora alguém do público antes de ser fuzilado. Então por que eles continuam nos circos?

A resposta nem me interessa. Condenar um leão a uma vida de sofrimento, maus-tratos, fome e escravidão para faturar uns trocados a mais na bilheteria é inaceitável. Que os donos de circo façam isso, é uma coisa. Que uma sociedade civilizada deixe que eles façam, é outra.

Pois circos de nomes exóticos continuam por aí com seus tigres, elefantes e macacos sendo submetidos a uma vida de horror e violência. Dentes são arrancados ou serrados, garras idem, e eles vivem em minúsculas gaiolas por toda sua vida. Até que um dia passam a não valer mais a pena – e o circo abandona a jaula sobre rodas em alguma estrada, sem água nem comida.

Quem faz isso é bandido. E, como bandido, deve ser denunciado e tratado. Mas esses meliantes do picadeiro quase sempre dão um jeito de escapar a qualquer punição. E ainda têm a cara de pau de dizer que defendem as “tradições circenses”. Ou, pior ainda, que tratam os animais como se fossem seus próprios filhos.

Eu tive a chance de ver de perto tanta “bondade”. Visitava o santuário de animais Rancho dos Gnomos quando chegou uma dessas carretas de circo abandonadas em alguma estrada poeirenta. Na carreta, duas leoas em estado lamentável – Gaya e sua irmã. Eu subi na “jaula” e fiquei separado das leoas por uma grade. Nunca vou me esquecer o medo que as duas tiveram de mim. E que deviam ter de qualquer ser humano. A irmã morreu em pouco tempo. Gaya sobreviveu cheia de seqüelas, e hoje vive em paz no Rancho.

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