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Responsabilidade Gastronômica

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Há alguns anos, eu trabalhava numa revista masculina e por acaso chegou até mim a coluna de gastronomia, antes que fosse publicada. Meus olhos passaram correndo pelas linhas, mas ficaram paralisados numa dupla de palavras – “sushi vivo”.

Isso mesmo. Um restaurante japonês de São Paulo oferecia aos seus clientes a possibilidade de comer um peixe fatiado ainda vivo e tendo espasmos entre os palitinhos. Protestei na hora. O próprio autor não tinha percebido a gravidade do que tinha escrito. A nota chegou à alta direção da editora, que divulgou para todas as publicações: maltrato a animais não tem espaço em nossas páginas de culinária.

O que nos leva a uma questão difícil: onde está o limite? Se cada crítico de gastronomia levar essa ordem a sério… vão virar todos vegetarianos. Porque para qualquer prato que envolva qualquer tipo de carne algum tipo de crueldade terá sido cometida.

Sempre fui muito realista. Compreender que vivemos numa sociedade eminentemente carnívora, especialmente no Brasil. Esse é um fato que não será mudado a curto prazo. Somos, afinal, uma potência exportadora de churrascarias e frangos congelados.

Sei que seria ridículo exigir que todas as seções de culinária de toda a mídia parassem imediatamente de falar de pratos que envolvam a morte de animais. Mas acho que podemos estabelecer um certo limite ético, ainda que provisório:

1) Culinária é uma coisa. Tortura é outra. Sushi vivo deve ser banido de qualquer sociedade. E pratos como patê de foie-gras deveriam ser banidos da mídia e da mesa. Para isso, é preciso que os editores de gastronomia sejam informados pelos horrores por que passa um ganso para que o patê seja produzido. Aquele horror todo compensa um sabor diferente numa torradinha?

2) Os prazeres gastronômicos dos homens precisam de alguma consideração ética. O mesmo princípio nos impede de aceitar a pedofilia, por exemplo. Condenar um bezerro a passar seus poucos meses de vida num quadrado de cimento, sem sol, para ser abatido ainda bebê não deveria ser aceito numa sociedade civilizada. Mas é assim que se produz o baby-beef.

3) Culturas locais devem ser respeitadas, mas também com limites. Durante as Olimpíadas de Beijing, por exemplo, o costume chinês de se comer cães foi tratado por boa parte da imprensa entre sorrisos e piadas como um simples costume exótico. A consciência do calvário de um cão antes de chegar à mesa talvez diminuísse os sorrisos e até provocasse a chance de algumas grandes matérias.

Comer é bom. Comer bem, melhor ainda. Mas como tudo mais na vida, um prato exige consciência e responsabilidade. Não é isso que – dizem – distingue os homens de outros animais?

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