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Vocação para o declínio

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Um filósofo escreveu que o conflito entre a animalidade e a animalidade do homem é o conflito definitivo, que governa qualquer outro. Vou pegar essa ideia e articulá-la ao contexto do meu pensamento atual. Ontem assisti ao Curioso caso de Benjamin Button. Para revelar o mínimo, trata-se de um homem que nasce velho e vai rejuvenescendo. Isso quer dizer mais do que o óbvio: na história, o percurso de perfectibilidade do homem é invertido. Benjamim é alguém que, após uma vida no mínimo estranha, está caminhando rumo à própria e frágil animalidade nua. Um animal imperfectível, ao fim dos anos.

Rousseau traçou a diferença entre homem e animais a partir da faculdade de se aperfeiçoar. O animal, ao fim de um curto período, já é o que será pelo restante de sua vida, ao passo que o homem se desenvolve ao longo de sua existência… Amplia sua percepção e suas habilidades, até que pela velhice, ou acidentalmente, começa a perder aquilo que sua perfectibilidade lhe permitiu conquistar. Button viveu ao contrário: converteu-se num animal sem condições de decair em suas faculdades; chegou ao mínimo de sua existência naquele momento em que estaria pronto para simplesmente começar a aprender.

Ora, a aprendizagem é o destino do homem, mas nunca abandonamos a nossa própria vocação para o declínio, para o fracasso, para a velhice e a morte. Se for assim, quando nascemos somos iguais aos animais. Então aprendemos, aperfeiçoamo-nos. E quando ficamos velhos? Caímos a um nível inferior aos demais animais? Somos iguais nesse ponto? Seríamos superiores, ou simplesmente diferentes?

Acho que esta é a dita animalidade do homem: um ser que busca aprimoramento, mas está intimamente atado ao declínio. É um grande conflito, do qual ninguém quer abrir mão. Gosto de ser humano e de seres humanos. Gostamos de ser alguém, e não uma espécie. Temos gosto pelo tempo passando, mas morrer?

No curto período em que amadurece, o animal aprende a viver. O homem precisa de mais: mais do que tudo, aprender a morrer.

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