A carrocinha através dos anos
Recordo uma cantiga de infância, também cantada no Colégio Americano Batista e nas reuniões sociais das igrejas presbiterianas, chamada ” A carrocinha”. Cantávamos, meninos e adolescentes: “A Carrocinha pegou/ três cachorros de uma vez/ trá-lá-lá, que gente é essa?/ trá-lá-lá, que gente má”. A cantiga se repetia como um refrão dividido e, na parte final, sofria um revezamento melódico que alternava o “trá-lá-lá” com “ai-ai-ai” ou “au-au-au”. Jamais, adolescentes e meninos, pudemos perceber a dor dessa cantiga. Recentemente, voltei a ouvi-la e não vou esquecê-la nunca mais. Decerto que já não era a mesma música dos meninos e adolescentes que fomos. Demorei-me, perplexo, sem entender como aquele horror se traduziu em um estribilho feliz. Quem inventou aquilo? Como poderia soar alegre uma modinha tão triste? Foram mexer na minha infância e na minha adolescência. Ah, foram remexer minhas lembranças! Era uma monstruosidade o que cantávamos. O “ai-ai-ai” ou “au-au-au” eram gritos, que ouvi (e vi) ao vivo, dos cachorros na Carrocinha.
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