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Olhar literário - laerte levai

Reflexos de luz

31 de dezembro de 2015 às 13:00

Prometi uma crônica poética de fim de ano e ainda estou aqui folheando, a esmo, este maldito pergaminho de Física que tanto me atormentava em tempos idos. Vejam só que curioso… Num trecho da apostila está escrito que o fenômeno da reflexão consiste no ato de a luz voltar a se propagar no meio de origem, após incidir sobre um objeto ou superfície lisa. Usada na projeção de imagens tridimensionais – prossegue a lição – essa técnica se aplica na construção dos espelhos e, também, nos sistemas de lentes dos telescópios. Décadas depois do colegial eu continuo sem entender nada. Para mim a capacidade de ver a própria imagem refletida ou o fragmento vivo do universo desconhecido que pulsa acima das nossas cabeças ainda causa uma sensação de perplexidade.

Se bem que há uma outra coisa inusitada que os reflexos de luz provocam na gente. Tem a ver com as especulações sobre o Eu profundo que nos habita, estas caraminholas da consciência agônica capazes de aumentar nosso humano sofrimento. Posso até arriscar a dizer, de modo didático, que a placa refratora gera aquilo que os físicos chamam de reflexão especular. E eis que, de repente, surge a presença iluminada do homem diante do homem. O Eu e o Outro qual duplo dividido entre o céu e a terra, entre o ser e o não ser, entre a realidade e a representação. Disposto a tirar a prova dos nove, detenho-me a observar o estranho vulto que se metamorfoseia a cada dia no espelho e pergunto: quem és tu?; corpo vivo, luz refletida ou nada disso? Acho melhor parar com tantas cismas e voltar ao texto.

O foguetório lá fora ofusca o brilho das estrelas e eu, em sofridas linhas, vou tentando encontrar inspiração para o artigo. Ajusto a sintonia para abafar o rumor que sobe das ruas e uma ideia começa a surgir. Vem duma música ao longe, não me lembro o seu nome, qual reflexo difuso de luz fugidia. O que diz a letra? Love this funny thing /I never really go/ Ijust go alone and sing a song / I dont know my way / wheather go or stay… Seria real ou tudo em mim permanece ficção? Seja como for, da minha gaiola de concreto armado deixo correr o rio da memória. O tempo então se torna a quarta dimensão do espaço e tudo parece mais leve. O brilho da estrela extinta já não é passado, ele vive dentro aqui. Posso agora sentir tudo outra vez, reconhecer, ressurgir. Uma inocência quase primitiva faz-me acreditar que não estou só. Tenho a certeza de dormir para depois acordar.

A canção toca no rádio e eu fico a questionar se ela não é fruto da minha mente expatriada. Penso no Dostoiévski da grande dor existencial, na poesia de Cesariny com suas esquinas desencontradas, penso no Cortázar das flores amarelas e na tragédia contemporânea de Antônio Marinheiro. Procuro a poética no mundo vasto mundo em que vivemos e quase nada encontro. Por onde andará o compositor latinoamericano sem dinheiro no banco? Em que perdida esquina ficou o Clube da Esquina? E da melodia mais bela do trio de máscaras andrógenas que ousou desafiar a ditadura militar, quem é que Fala? Cadê o rebelde incompreendido que não pôde botar seu bloco na rua? Por que fecharam o Blue Riviera das noites insones da boemia? E o soul daquela jovem voz contralto para sempre silenciada? Penso neles todos, na obra que legaram ao mundo, no brilho irradiado de sua Arte, penso nos vivos e nos mortos. Enquanto isso, no rádio, a doce canção não me deixa.

Clic. Um sujeito invade o quarto e acende a luz, a pretexto de assistir do alto o amanhecer do ano que nasce. Enquanto aguarda a meia-noite o intruso assume o controle de tudo: escancara a janela, desliga o som, quebra o sonho e, não satisfeito, senta-se ao computador para mexer no texto que aparece na tela. Pelo visto ele não gostou de nada, altera sem dó nem piedade meu pobre script natimorto. Sem conseguir traduzir “Reflexos de luz” ao inglês, troca o título para “Luz extinta”. Seu artigo, até onde consegui ler, afirma que toda reflexão poética é inútil e que a estética romântica está morta e enterrada. Porque na vida real, segundo ele, não há lugar para o simbólico e tampouco para sentimentalismos… Em seguida o crítico levanta-se da cadeira, abre uma garrafa de vinho e se posta à janela, como que a ofertar um brinde a 2016. No céu de guerrilhas faiscantes o estrondo das bombas e foguetes é saudado pela multidão em festa.

BRUUUUUMMM!!! Cristo Senhor, o que foi isso? Um morteiro ou sabe-se-lá-o-que estoura bem aqui e arrebenta a vidraça, projetando meu visitante para trás. O sujeito aterrorizado, cego pelo clarão, ensurdecido pelo barulho e mudo pelo susto, parece um animal acuado. Ele agora é um gato eriçado de olhos enormes, ele é uma ave perdida e depenada, ele é um cão ofegante capaz de atravessar portões, ele é um peixe asfixiado pela pólvora, é um bicho trêmulo a se enfiar pelos cantos. – Calma irmão, isso passa, calma! As luzes artificiais vão se apagando uma a uma e aos poucos tudo sossega, menos o meu compatriota agachado com as mãos sobre a cabeça. Olho para o relógio: já é madrugada e o prometido texto do reveillon nem sequer pude enviar. Mas que se dane o conto poético, há alguém a sofrer e que precisa de ajuda. Passados o susto e as horas, recolhidos os cacos do chão, religo o som e aquela velha canção – “That Love” (agora lembrei o seu nome!) – torna a pacificar o mundo…

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