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“Um animal que veste verde oliva, serve ao Exército e tem a cor marrom nos pés”. É assim que a Força Aérea Brasileira considera Adam, seu novo cão paraquedista, que realizou seu primeiro salto no último dia 18/11. Adam foi adestrado para realizar atividades como farejamento e patrulha, tendo sido já usado em operações militares como as no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro.
No Brasil, praticamente todos os humanos do gênero masculino ao completarmos 18 anos somos obrigados a nos alistar no exército, experiência lamentável para muitos de nós, em aflição pela possibilidade de sermos escolhidos e obrigados a servir a esta instituição, dedicar-se às armas, às táticas de defesa da pátria, mesmo que em detrimento do respeito à vida, à alteridade, à vontade orgânica dos grupos humanos. Lembro-me que a única coisa que me passava pela cabeça quando passei por este dia sofrível era como iria fazer pra fugir do país caso fosse convocado.
Algo que poucas vezes é citado é o alistamento obrigatório de animais de outras espécies (e estes nem fugir do país conseguirão). É clássico, conhecido por qualquer pessoa que estudou História ou já assistiu filmes que retratem batalhas antigas, o uso milenar dos cavalos em guerras e exércitos mundo afora. Hoje, tomei conhecimento de mais uma forma de escravizar animais para fins militares: o adestramento de cães para virarem paraquedistas.
A ideia de interesse é muito válida para analisar este caso: quem somos nós, humanos, para passar por cima dos interesses específicos dos animais e transformá-los em peças a serviço de nossas necessidades: máquinas de produzir leite, máquinas de produzir lã, máquinas de produzir mel, máquinas de produzir carne, máquinas de detecção de drogas, máquinas de intimidação de suspeitos de crime, máquinas de transporte, etc.? Mesmo que seja impossível para mim, humano, saber exatamente qual o interesse de um cão, não me parece que seu sonho seja saltar de um avião nas alturas, farejar e caçar contraventores de uma lei que ele nem mesmo sabe que existe ou, em uma guerra, caçar alguém que cometeu o grave delito de nascer em outro povo.
Adestrar um cão para saltar de um avião e agir com agressividade contra aqueles que contrariam os interesses do Estado é uma violência contra o cão, sua liberdade, seus interesses específicos. Em verdade, mesmo que o objetivo do adestramento deste cão fosse desejado por 100% das pessoas, ainda assim seria uma violência contra o cão obrigá-lo a servir aos interesses de outra espécie.
Vivemos um modelo de civilização oriundo ainda da Revolução Neolítica, há 10000 anos, baseado na vida sedentária com criação de animais e vegetais. Isto significa viver com propriedades privadas sobre a terra: os pedaços de terra passaram a ser propriedades de algumas pessoas, como se um ser humano pudesse ter o poder de decidir sobre toda a vida que existe dentro daqueles limites. Daí decorre que o Estado nada mais é do que a extensão desta forma de viver: grandes fazendas onde se gerencia o gado humano que deve trabalhar para a manutenção da própria fazenda (exatamente como as vacas, por exemplo). Até mesmo para ir passear na fazenda de outro dono, é preciso que os representantes de sua fazenda autorizem sua saída. Se queremos produzir ou trocar algo, precisamos deixar cientes os donos da fazenda e, claro, pagar-lhes uma parte de nossa produção. Entre as obrigações nefastas do rebanho humano está a de defender a própria fazenda e, se necessário, por ela dar a própria vida ou tirar a de outras pessoas: servir ao exército. Ao contrário de tantos benefícios, esta violência não é privilégio humano.
Quando falamos em respeito aos animais, tema desta agência de notícias, devemos falar não apenas em direitos legais, aquilo que o Estado pode fornecer pela forma da lei, pois mudanças radicais na relação entre humanos e o restante da natureza exigiriam rupturas inclusive com a própria ideia de Estado, como parte de processos de metamorfose daquilo que consideramos como nós mesmos, eu, o outro, natureza, cultura, entre outras definições de limites.

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