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O fim de semana que passou foi ocasião do 3º Congresso Vegetariano Brasileiro. Desta vez foi em Porto Alegre. Até pode existir alguém capaz de sustentar que esse evento se dirige a todo o público, incluindo onívoros. OK. Mas a gente sabe que não é verdade. O público é predominantemente vegetariano, em números quase totais.
Sabendo disso, o mínimo que se espera é “encher a pança”. Prestem atenção, eu disse o “mínimo”. É certo que o que mais interessa são as palestras, o conteúdo dos discursos. E não que esta parte escape dos deslizes, claro, mas vou preferir comentar sobre isto depois. Por agora, apenas reflita:
- Você esbarra quotidianamente em uma série de limitações para se alimentar e viaja algumas centenas de quilômetros para se juntar a um contingente de pessoas que passa pelas mesmas experiências que você. E aí, come o quê? Sanduíche. Ah, mas e o almoço? Até pode ser questão de gosto pessoal, mas sei de várias pessoas que reclamaram da comida servida no restaurante do hotel que sediou o evento. Parece-me que era algo completamente sem atrativos, apesar da boa intenção.
É triste, mas, por um dever de honestidade crítica, vou ter que dizer: ainda bem que o congresso era só para vegetarianos! Porque se algum onívoro menos deslumbrado resolveu passear por lá, pôde confirmar de maneira irrefutável um dos mitos mais manjados do vegetarianismo. A nossa comida não presta!
Ressalva: o tal sanduíche que eu comi repetidas vezes era bom, sim. Fornecido pelo restaurante Casa Verde, onde tive excelente experiência gastronômica em Porto Alegre, certa noite em que o visitei. Porém, o restaurante é uma coisa; a banquinha no Congresso tem outra proposta, óbvio! Então, o que se deve dizer é que, se houve algum problema de abastecimento, os menos culpados disso são os donos do restaurante Casa Verde. Por sinal, justiça seja feita, se todas as refeições estivessem a cargo da dupla titular do bistrô da Cidade Baixa, a turma veg do brasil teria engordado alguns quilos. Bom seria…
Numa certa dose, o 3º CVB repetiu a desgraça alimentar que experimentei ano passado, no Rio de Janeiro, quando do Festival Vegano Internacional. Lá eu fui salvo por um hambúrguer de grão de bico servido por uma turma de estilo marcante, que escutava hard core enquanto fritava o bife da multidão faminta. Cooperativa Manjericão, se não me engano, era a banca. Agora, acreditem: não passou disso. Comida boa, só fora do Festival. Até pode haver quem se satisfaça com um ou outro docinho, ou alguns petiscos meio improvisados que costumam esgotar em minutos. Eu, particularmente, fiquei longe de satisfeito.
Então tá. A gente supera o lance gastronômico, em nome de um bem maior, e adentra no mérito da abordagem. Jurados… Nota! Olha, nem vou me arriscar a levantar a plaquinha.
A primeira coisa a se dizer é: os vegetarianos estão indecisos. Não sabem se são ativistas, esotéricos, hippies ou anarquistas. Se cozinham no fogo, deixam aquecer no sol, ou comem tudo frio. Em casos mais extremos, não sabem se comem ou abdicam da degustação para viver da luz. Se buscam inspiração metafísica, em ensinamentos espirituais, ou no quotidiano mais concreto (tá, alguém vai dizer que nada é concreto… tudo bem). Se suplementam B12 ou isso é papo furado, porque a natureza é perfeita e certamente nos providencia as doses necessárias de nutrientes, mesmo se consumindo exclusivamente vegetais e alguns fungos.
Não sei o que vocês acham disto. Talvez exista quem pense que isto é bom, que mostra que a mentalidade do vegetariano é plural, que são vários os pensamentos possíveis etc. Eu, no entanto, acho isso péssimo. Sabem por quê? Porque a única coisa que não foi contemplada devidamente foi o “normal”. Vegetariano, ao que parece, sempre tem que “ser alguma coisa”. Não pode ser, pura e simplesmente, vegetariano. Entendem? No próximo Congresso, talvez eu alugue um espaço, uma banca, para nomeá-la exatamente de “Banca do Vegetariano Vegetariano”. Assim mesmo… este é o único predicado que eu faria questão de ressaltar num Congresso que esbanja excentricidades, num esforço incompreensível para confirmar um outro mito: vegetariano é (aí vem um estranho polinômio): esotérico-místico-hippie-alternativo-yogue-etc. Claro que é! Você circula numa feirinha de gente assim e sente cheiro de quê? Ah, não me decepcione… a resposta é óbvia: incenso! E no 3º CVB? Bingo, incenso também.
O Congresso Vegetariano Brasileiro valeu a pena? Sim. Conheci pessoas legais, fiz novas amizades, reencontrei alguns amigos e, além disso, notei uma porção de gente “normal” já alarmada com os rumos que o nosso ambiente veg está tomando.
Hora de acordar.
P.S.: a intenção de usar o designativo “normal” não passa de uma licença que, neste contexto, tem o único escopo de marcar posição. Ou melhor, oposição. A verdade é que o melhor seria ter utilizado a locução “vegetariano sem rótulos”, mas a leitura não fluiria do mesmo jeito. O resultado pode ser criticado livremente por quem se sentir perturbado com o flagelo da anormalidade. Acreditem, no entanto, que meu palavrório não foi arbitrariamente escolhido.
P.S.2: não assisti a nenhuma palestra em Porto Alegre, mas tive acesso à grade de programação. Conversei com várias pessoas também. Já no Rio de Janeiro, sobre o outro evento ao qual me referi, pude, sim, assistir a algumas explanações. Mantenho integralmente as críticas aqui veiculadas, com plena convicção de que não estou distorcendo os fatos. É certo que houve exceções positivas, que mereciam ser destacadas, mas vou abrir mão de nomeá-las. Quero crer que a qualidade de alguns trabalhos salta aos olhos, dispensando referências expressas, por destoarem cristalinamente em meio a tanta sandice.

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