A escolha, a liberdade e o compromisso intrínseco à educação vegana

silvana
julho 15, 2011

“A verdadeira função social da filosofia encontra-se na crítica ao que está estabelecido (…) Mas o que nos entendemos como crítica é o esforço intelectual e, em definitivo, prático para não aceitar, sem reflexão e por simples hábito de ideias, as formas de agir e as relações sociais dominantes…” (Max Horkheimer)

O que significa dizer que a existência precede a essência? Essa foi a pergunta feita por Sartre ao defender seu existencialismo numa conferencia no Club Maintenant em Paris, a qual, ele dará a seguinte resposta:

“significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer (…) O homem é não apenas como ele se concebe, mas como ele quer que seja, como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele faz”1.

É dentro dessa perspectiva que o educador vegano deve se vê. Como aquele que se lança, que se projeta; a primeira escolha já foi tomada, adotar o modo de vida vegano como telos existencial, mas é no segundo ato, no escolher educar veganamente que ele se projeta. E será nesse projeto existencial ético, que exige demasiada paciência e persistência2, que ele tornar-se-á o que tiver projetado ser. O educador vegano tem plena consciência da responsabilidade que tal projeto exige. Responsabilidade que transcende sua restrita individualidade, mas que também não se restringe aos alunos em sala de aula; trata-se da responsabilidade ética por todos os animais humanos, não-humanos e os ecossistemas naturais. “O homem ligado por um compromisso e que se dá conta de que não é apenas aquele que escolhe ser, mas de que é também um legislador pronto a escolher, ao mesmo tempo que a si próprio, a humanidade inteira, não poderia escapar ao sentimento da sua  total e profunda responsabilidade” 3.

Diante do gigantismo da hipocrisia que rege o mundo onívoro, o educador vegano tem consciência de que não poder “fazer tudo não leva a concluir que então continuaremos a não fazer nada”4. Os combates nas instituições de ensino especistas são por demais cansativos e desestimulantes. No entanto, o educador vegano não se deixa levar por um forte corpo burocrático especista, pela forte oposição de pais esquizofrênicos morais e nem mesmo pelo grande numero de alunos desinteressados. “estamos sós e sem desculpas”, é o que Sartre traduziu por: “o homem está condenado a ser livre”.

Uma vez engajado, lançado, num projeto de educação vegana formal, não há desculpas deterministas para não realizá-lo, e o fazer até o fim. É essa liberdade que leva o educador a assumir o compromisso responsável pela abolição de toda a exploração e desrespeito com os não-humanos. O educador vegano difere imensamente dos que buscam desculpas e não se envolvem, os que defendem uma pretensa neutralidade pedagógica, os que pecam por omissão, esses são covardes, safados, escolheram agir assim por espírito de seriedade.

Educar veganamente não é nada mais que fazer-se a si mesmo no projeto abolicionista animalista que se propôs realizar. A essência de quem se dedica a um projeto de vida como esse vai além do “conjunto de relações sociais”5 que o circunda, pois envolve sua animalidade na totalidade e sua intrínseca e irrefutável dependência do meio ambiente natural. Escolher se dedicar a um projeto político-pedagógico ético que tem por objetivo a abolição de todo tipo de dominação tirânica ou sutil sobre os que estão em estado de vulnerabilidade independente da formatação biológica que estes se constituem, é escolher lutar pela justiça, liberdade e dignidade. “Todo projeto, por mais individual que seja, tem um valor universal” 6.

Dentro da escola é senso comum ouvir dos docentes e do corpo burocrático que o professor que apresenta e discute o veganismo e os direitos animais em sala de aula está doutrinando, impondo um ponto de vista; e, apelam para uma pretensa neutralidade no trabalho docente. Exemplifico com a seguinte frase dita em uma reunião pedagógica por uma professora de Filosofia: “eu não dou aula do que eu gosto. Tenho um parâmetro curricular para seguir e cumprir”. Sobre o dar aula do que gosta, ela estava se referindo à minha dieta; “ele é vegetariano, por isso fica empurrando o vegetarianismo para os alunos”. Infelizmente essa covarde, não entendeu ou faz de conta que não entende que vegetarianismo, veganismo e direitos animais não são uma questão de gosto, e sim de ética7. E se tratando de ética, ela como professora de Filosofia deveria ser a primeira a parar para refletir sobre o tema. É por isso que sempre deixo claro para os alunos que existe um Everest entre os filósofos e os professores de filosofia, ou como diz Nietzsche “filósofos pela graça do Estado”8. Ainda não descobri se esse apelo à neutralidade do que deve ser ensinado é fruto de uma medíocre formação pedagógica ou pura hipocrisia. Estou quase concluindo que é a união das duas.

“A escolha é possível num sentido, mas o que não é possível é não escolher. Posso sempre escolher, mas devo saber que, se eu não escolher, escolho ainda” 9.

Todo professor sabe que nunca existiu neutralidade no ensino. Todo docente que ministra aulas em uma escola municipal, estadual ou particular sabe, e muito bem, qual é a política a ser seguida naquela instituição. Até hoje não conheci ninguém que foi obrigado a dar aula, a assumir-se como professor. Pelo contrario, se dá aula no município ou Estado é porque passou num concurso publico, se é numa escola particular é porque enviou currículo ou foi indicado por um amigo, ou seja, escolheu onde trabalhar.   Portanto, educador vegano, assuma seu compromisso com modo de vida que escolheu. A responsabilidade pela escolha envolve não só você, mas toda a humanidade, ou melhor, toda a animalidade, e o ambiente que ela está inserida.

Professores que são veganos e que não introduzem a temática em sala de aula estão escolhendo continuar reproduzindo o capital sócio-cultural especista que o sistema neoliberal de ensino escolheu como currículo oficial. Aqueles docentes que são veganos e que dizem, “eu não toco no assunto no meu local de trabalho, dá muita confusão”, são covardes, fizeram a pior das escolhas, escolheu ficar do lado do explorador, do algoz, do tirano. Pois é nesse local de trabalho, a sala de aula, que o assunto deve ser tocado, mexido, desmontado e discutido. Até o presente momento não encontrei lugar melhor para apresentar e discutir a ética animal. Não pense você, professor que adotou o modo de vida vegano, e que fez a escolha por simplesmente cumprir com o currículo oficial estabelecido de cima para baixo, que estará livre da responsabilidade de tal decisão. A omissão causa tanto dano quanto a ação tirânica. Você, docente, é tão déspota quanto os que estabeleceram o que deve ser reproduzido às crianças e adolescentes como verdade absoluta. Lembre-se, “o que não é possível é não escolher”. Ao não escolher a educação vegana formal, escolheu manter o status quo. Você é o que escolheu ser. Esse é o preço da nossa condenação à liberdade.

“O homem faz-se; não está realizado logo de início, faz-se escolhendo a sua moral, e a pressão das circunstancias é tal que não pode deixar de escolher uma. Não definimos o homem senão em relação a um compromisso”10.  Buscar desculpas, justificativas, determinismos para não adotar a educação vegana formal e o raciocínio ético como espinha dorsal de sua aula é má-fé. A má-fé é nitidamente uma mentira, pois mascara a total liberdade do compromisso. Agir de má-fé é agir covardemente.

Diante de tudo o que os outros animais passam para suprir a superficialidade humana criada ideologicamente por um sistema econômico reificador de toda expressão de vida, não posso me omitir de lutar pelo mais básico dos valores em uma sociedade que se diz democrática: a liberdade. Gritamos que a escravidão é um absurdo, mas só a dos humanos? Pois, os animais não-humanos são nossos escravos. O educador vegano tem consciência de que sua liberdade só se realiza de fato na liberdade do outro, a liberdade de um depende inteiramente da liberdade do outro. “Uma vez que existe a ligação de um compromisso, sou obrigado a querer ao mesmo tempo a minha liberdade e a liberdade dos outros; só posso tomar a liberdade como um fim se tomo igualmente a dos outros como um fim” 11.

O educador vegano tem consciência de que seu compromisso, sua escolha consciente e refletida por um projeto político-pedagógico ético não deve nunca se deixar abalar pelas “críticas” e juízos de valor dos colegas de profissão. “Quem escolhe tal diaíta”, o modo de vida vegano, “não precisa de mais nada na vida para ocupar-se intelectualmente” 12, ou seja, temos muito que fazer. Lutar pela liberdade dos vivos-vazios, de coisas, de produtos e autômatos, não é nada simples, mas é fundamental, e a primeira luta é no plano conceitual. A liberdade deles pressupõe a nossa. Não se trata de deveres indiretos, mas sim de uma luta para que todos os animais, humanos e não-humanos, vivam sua animalidade plenamente, e isso é impossível enquanto o especismo for uma realidade.

O educador vegano tem consciência que o combate nas escolas (local onde o espírito de seriedade domina, as desculpas deterministas são frases de efeito dos covardes e safados) deve ser guiado pelo raciocínio ético, para tal, é necessário munir-se de muita leitura e reflexão crítica, não podemos nos deixar acomodar no analfabetismo funcional animalista.  E tem consciência também que “o requisito fundamental da atitude crítica é a coragem; seu maior inimigo é a covardia, mesmo quando adquire a forma moderada da preguiça intelectual. O caminho mais fácil é sempre aceitar o que é conhecido. Não apenas economiza esforço, como também coloca a responsabilidade em outrem” 13.

Engajar-se em tal combate é assumir o compromisso pelo outro. “se admitirmos uma teoria de compromisso, é necessário comprometermos até o fim” 14. Escolher a educação vegana formal como projeto existencial é assumir a responsabilidade pelo mundo. E minha responsabilidade para com o outro não tem data de validade, é um compromisso ético que assumo para a vida toda. Como educador vegano sou livre para escolher e escolho livremente tal compromisso.

Notas:

1. SARTRE, J. P. O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p.12.

2. Cf. Sônia T. FELIPE. Direitos Animais. Desdobramentos das pregas morais. In: ANDRADE, Silvana. Visão Abolicionista. Ética e direitos animais. São Paulo: Libra Três, 2010. p. 11-28.

3. SARTRE, ibid, p.13.

4. FELIPE, ibid, p. 19.

5. MARX, K; ENGELS, F. A Ideologia Alemão (I – Feuerbach). São Paulo: Hucitec, 1989. p. 127.

6. SARTRE, ibid, p.22.

7. Sobre o confundir gosto com ética e sobre tomar uma decisão ética cf. Luciano C. CUNHA. “Está tão na cara que é difícil de enxergar” (parte I, II e III). In: WWW.pensataanimal.net/

8. NIETZSCHE, F. Consideração intempestiva: Schopenhauer educador. In: Escritos sobre Educação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: São Paulo: Loyola, 2003. p.208. “A experiência nos ensina infelizmente (…) que nada se opõe mais à produção e à perpetuação dos que são grandes filósofos por natureza, do que os maus filósofos pela graça do Estado”.

9. SARTRE, ibid, p.23.

10. SARTRE, ibid, p.24.

11. SARTRE, ibid, p.25.

12. FELIPE, ibid, p. 25.

13. DEWEY, John. “Constrution and Criticism”. In: BOYDSTON, Jo. A. (ed.). The Later Works of John Dewey. Carbondale: Southern Illinois University Press, 1985. Vol. 5, p. 134.

14. SARTRE, ibid, p. 29.


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