O sentido do vegetarianismo – do vegetarianismo holístico aos direitos animais


Introdução

O vegetarianismo, contrariamente ao que muitos querem fazer crer, surgiu a partir de uma objeção ética à violência contra os animais. Essa ética, contudo, estava submersa em uma visão de mundo mais abrangente, e predominantemente religiosa, onde se manifestava de forma periférica.

Essa visão de mundo tem suas raízes no princípio da não violência do budismo e hinduísmo. A Ahimsa (Não Violência) é um dentre outros preceitos básicos do hinduísmo – tais como Satya (Verdade), Asteya (Não Roubar) ou Daya (Compaixão). Isso significa que, pela maior parte da sua história, aquilo que se convencionou chamar de vegetarianismo esteve associado a uma visão de mundo holística, ligada a uma série de preceitos para uma vida virtuosa e espiritual. Os animais não estavam no centro de suas preocupações. Por isso eu chamo essa forma de vegetarianismo de vegetarianismo holístico [1].

É dessa perspectiva espiritual e holística que deriva a associação que ainda hoje se faz, dentro e fora do movimento pelos animais, entre vegetarianismo e uma vida frugal, simples, se não ascética. As circunstâncias históricas contribuíram para que tal vínculo persistisse até os dias atuais.

Neste texto apresento três hipóteses para explicar não apenas a difusão do vegetarianismo holístico, mas igualmente as razões pelas quais ele é ainda tão influente, e porque o considero insuficiente e até contraditório com a promoção dos direitos animais.

Primeira hipótese: a cruz e a espada

Do hinduísmo na Índia antiga ao puritanismo protestante britânico do século XIX, a prática que se convencionou chamar de vegetarianismo fazia parte de uma certa forma de espiritualidade que conclamava à compaixão e à sublimação dos fugazes prazeres terrenos.

Talvez não seja coincidência que o vegetarianismo moderno tenha se difundido, no Ocidente, a partir da Grã-Bretanha. Isso por dois principais fatores. Um exógeno, outro endógeno. O exógeno diz respeito ao colonialismo britânico. Como maior potência marítima e colonial de sua época, o país podia beneficiar-se de um intercâmbio cultural, ainda que evidentemente assimétrico, em favor dos colonizadores. Contudo, como demonstra o surgimento da antropologia e a tradição do governo indireto, as potências colonialistas não raro sentiam a necessidade de conhecer as culturas locais como estratégia de controle e dominação.

Foi também nesse período que a Índia, onde predomina o hinduísmo, sucumbiu ao colonialismo britânico. A Índia foi também um posto avançado do governo indireto, pelo qual os britânicos governavam pela concessão de privilégios às elites locais. Os membros dessa elite, por sua vez, não raro viajavam para a Inglaterra para completar sua educação formal superior. Foi o caso, por exemplo, dos três principais líderes do movimento de independência da Índia, os hindus Mohandas Gandhi e Jawaharlal Nehru, e o muçulmano Muhammad Ali Jinnah. É compreensível que, nesta situação, os britânicos tenham entrado em contato com os princípios hinduístas da não violência, e os ressignificado e adaptado aos seus próprios princípios. Foi assim que os britânicos absorveram influências do hinduísmo, inclusive o vegetarianismo.

O escritor Henry Salt, por exemplo, contemporâneo de Gandhi, nasceu na Índia, filho de um oficial britânico, e foi em seu tempo um dos mais eminentes defensores dos animais. Salt percebia a questão dos animais sob outras lentes: ele era um reformista social. Como bom reformista, ele não preconizava a abolição da exploração animal. Ainda assim, ele teve uma importância paradigmática, por inserir a questão animal numa esfera laica e política [2]. Salt foi um dos primeiros a usar a expressão “direitos dos animais”. Para ele, a extensão de direitos aos demais animais constituía uma etapa no progresso moral e social da humanidade.

O fator endógeno diz respeito à própria tradição religiosa do puritanismo e protestantismo britânico. O protestantismo frequentemente esteve associado a uma visão de mundo ainda mais moralista e ascética que o catolicismo moderno. Como seu “reino não é deste mundo”, muitas seitas protestantes buscavam abster-se o máximo possível de todas as amarras do mundo material. Esse ascetismo poderia favorecer, em certos casos, posições políticas relativamente progressistas, como foi o caso do pacifismo entre os quakers (mal traduzidos para o português como “quacres”) ou o igualitarismo dos levellers. E, também, os deveres de respeito e compaixão pelos animais. Essa conexão fica evidente nos escritos do pastor anglicano Humphrey Primatt, como no texto A Dissertation on the Duty of Mercy and Sin of Cruelty to Brute Animals [Uma dissertação sobre o dever de misericórdia e o pecado da crueldade contra as feras], de 1776.

A hipótese da influência indiana, via colonialismo, para a difusão do vegetarianismo no Ocidente, não é original. É defendida, por exemplo, pelo historiador Rynn Berry. O que se pretende ressaltar é que o contexto político (o colonialismo – a espada) e religioso (o puritanismo – a cruz) contribuiu para que o vegetarianismo se difundisse na Grã-Bretanha, e de lá para o resto do Ocidente, preservando sua forte dimensão espiritual – holística – no processo.

Segunda hipótese: contexto social

Quando foi fundada, em 1847, a Sociedade Vegetariana britânica encontrava-se na Era Vitoriana, caracterizada pelo colonialismo e o puritanismo. A ideia do vegetarianismo se difunde na encruzilhada dos dois processos históricos que marcaram essa Era e transformaram não apenas a Grã-Bretanha, mas o mundo todo. O colonialismo levou o capitalismo e todo um modelo de civilização, as práticas e valores europeus para a África e Ásia.

Na própria Grã-Bretanha, a Revolução Industrial mudou por completo as relações sociais e econômicas. Nas fábricas, surge uma nova forma de trabalho e, com ela, uma nova classe de trabalhadores, o operariado. Em 1847, a Revolução Industrial já entrava na sua segunda fase, na qual o movimento operário se tornava cada vez mais organizado e consciente, e ganhava força e relevância na arena política.

Os traços mais marcantes da Inglaterra Vitoriana foram, então, o Imperialismo colonial, o conservadorismo de costumes e a emergência de uma nova forma de organização e conflito social. E, por mais remoto que pareça à primeira vista, esses três traços tiveram uma relevância basilar sobre a concepção do vegetarianismo e o movimento pelos animais, no Ocidente.

Nesse contexto, a Sociedade Vegetariana poderia ter optado, então, por dois caminhos. O da crítica social, sugerido por Henry Salt. Ou o da moral de base religiosa, enunciada por Primatt. A afinidade de causas apontava para o primeiro caminho. A trajetória histórica, contudo, fazia do segundo uma extensão mais natural, mais suave, mais “lógica”.

A própria radicalização política e cultural da época apontava para uma rigidez na direção a ser adotada. Embora hoje seja nítido que é um argumento antropocêntrico e falacioso, a marginalização da questão animal na escala de prioridades das camadas exploradas da sociedade é perfeitamente compreensível no período da Segunda Revolução Industrial. O movimento operário apenas saía de sua fase inicial. Os trabalhadores da época, submersos, afogados em injustiça social, superexploração laboral, poluição, doença, sujeira e todo tipo de insalubridade e indignidade das fábricas e vilas operárias, tinham poucas possibilidades de se ocupar da questão animal – afinal, estavam lutando pela própria sobrevivência e pelos seus próprios direitos. Ademais, naquele ambiente de extrema pobreza e exclusão social, e onde a educação e alfabetização ainda eram um luxo, também seu acesso a tais discussões era limitado. A noção de seus próprios direitos derivava não de princípios filosoficamente elaborados, mas da crueza da realidade, do conflito social e da luta política.

Por outro lado, ao negligenciar a dimensão ética do vegetarianismo, os seus partidários fecharam as portas ao diálogo nessas bases. O interesse pelo vegetarianismo permaneceu restrito às camadas mais abastadas da sociedade, a classe média com acesso à educação, em contato com outras culturas, com rigorosa formação religiosa e condições de dedicar-se a uma causa “caritativa”. E foi a partir desses parâmetros que se fundou o moderno movimento vegetariano. Logo, também pelas suas origens sociais, é compreensível que o vegetarianismo se associasse antes a uma moralidade de fundo religioso, que a outra de fundo social (reformista ou revolucionário). Isso não quer dizer que as causas operária e animal eram (ou sejam) incompatíveis. Pelo contrário: como dito, elas possuíam (e ainda possuem) uma afinidade fundamental. A equação, porém, não foi resolvida, pois as duas variáveis não se encontraram.

Desse modo, a legitimação do vegetarianismo foi condicionada pelo seu núcleo fundador e seu público-alvo. Os movimentos pró-vegetarianismo organizados não dialogavam com a classe trabalhadora nem tinham a intenção de atrelar sua causa a princípios de justiça social. Eles buscavam influenciar a elite de seu tempo, e é plausível especular que eles esperassem que sua causa pudesse ser mais bem-sucedida assim, apelando antes para os pudores da burguesia e da classe média do que para as aspirações de justiça da classe operária.

Essa cisão entre um movimento de justiça e um movimento de caridade marca, até hoje, o movimento vegetariano. Apenas nas últimas décadas – e, mesmo assim, com muita dificuldade e numa trajetória ainda incompleta e controversa – por meio do veganismo e a doutrina dos direitos animais o sentido político do vegetarianismo tem se desenvolvido.

A redução do “vegetarianismo” a uma dimensão espiritual não apenas limitou seu alcance. Ela também freou sua própria evolução, permanecendo a imensa maioria do movimento estagnada no protovegetarianismo. É interessante observar que uma das poucas vertentes a promover vegetarianismo propriamente dito foram os membros da Alcott House, uma associação para as reformas pedagógica e social [3].

Terceira hipótese: legitimação

Com o tempo, a associação entre vegetarianismo e ascetismo deixou de ser “apenas” uma extensão dos fundamentos sociais e religiosos dos vegetarianos para se tornar uma estratégia de comunicação e difusão. Coligar o vegetarianismo a valores genéricos de saúde e bem-estar diluía seu potencial radical e fazia com que ele pudesse difundir-se como uma prática “inocente”, “inofensiva”, que não exigia maiores questionamentos éticos, nem tampouco desafiasse o sistema mais amplo de dominação e exploração. Tratava-se antes de um movimento egoísta de bem-estar individual, totalmente adequado ao capitalismo liberal. Poderia envolver (ou não) também um processo de elevação “espiritual”, mas deixava meio de lado a reflexão ética, e excluía por completo quaisquer pruridos de crítica social.

Essa estratégia alienou ainda mais o vegetarianismo das demais causas de seu tempo, alienou os próprios vegetarianos da possibilidade de expandir o conhecimento da natureza de sua causa, e alienou o próprio vegetarianismo, que foi definitivamente esvaziado de seu sentido original e estagnou no protovegetarianismo.

O protovegetarianismo propagou-se num meio elitista e desprovido de qualquer consciência social, trazendo consigo, então, o desprezo dos contestadores sociais que o viam – não inteiramente sem razão – como “moralismo burguês estéril”, “alienação da realidade”. Se, por um lado, é ignorância apelar para as máximas de que “vegetarianismo é coisa de rico” e que “é errado se preocupar com animais enquanto há tanta gente passando fome no mundo”, a verdade é que em grande medida os protovegetarianos foram oriundos das classes mais abastadas e apenas com elas dialogavam, e sua preocupação com os animais não lhes dava “tempo” para pensar em toda essa gente passando fome no mundo.

Portanto, de ambos os lados, as duas causas não se tocavam e, embora tenham uma enorme convergência política e de princípios, permaneceram separadas por terem nascido separadas – diferente de outras causas sociais cuja conexão era mais evidente, como os casos do sexismo, colonialismo, racismo, que são inseparáveis das injustiças sociais. Essa alienação mútua limitava os horizontes de ambos os lados e, no caso particular dos protovegetarianos, limita grandemente sua capacidade de discernir sobre o que, afinal, implica ser vegetariano.

O movimento protovegetariano adotou, então, uma estratégia maquiavélica, de ocultar sua dimensão moral para legitimar-se socialmente. Quando falamos de uma estratégia “maquiavélica”, não nos referimos à concepção vulgar do termo mas, pelo contrário, a uma definição bastante precisa. O filósofo Nicolau Maquiavel, de quem deriva o conceito feito adjetivo, distinguia entre a moral do indivíduo e a moral do Estado, a moral do cidadão e a do Príncipe. Do cidadão espera-se, exige-se, um determinado comportamento moral. Virtuoso é o cidadão de retidão de caráter, honesto, observador da lei. A moral do Príncipe não é apenas diversa, mas oposta, defendia Maquiavel. No que concerne ao Príncipe maquiavélico, virtuoso é aquele capaz de mentir e ocultar, de modo a preservar a si e ao Estado. O soberano que não oculta suas intenções, que não se vale da mentira nem da trapaça, estará exposto à sedição interna e à guerra (sabendo das intenções do Príncipe, outro soberano pode recorrer à força para impedir que aquele alcance seus objetivos, que podem ser percebidos como nocivos aos interesses do outro Estado). Da dissimulação depende, em última instância, à própria sobrevivência de seu Estado, e a moral instrumental exige que os princípios éticos mais básicos sejam esquecidos ou violados.

Da mesma forma, o movimento protovegetariano permaneceu ele mesmo afogado na sua própria visão maquiavélica de esconder suas motivações éticas, na expectativa de que a ilusão que criava fosse aquela que melhor atendia aos seus interesses, pois mais adequada aos princípios e costumes de sua época.

Longe de transformar a atitude da sociedade para com os animais, foi o vegetarianismo que mudou. Mesmo na sua dimensão espiritual e caritativa, a objeção moral à violência contra animais se tornou cada vez mais marginal. Foi assim que a visão de mundo holística, espiritual e elitista, difundida por uma estratégia maquiavélica, acabou por esvaziar o vegetarianismo de seu conteúdo ético, até sucumbir inteiramente ao protovegetarianismo, ao “vegetarianismo” pela saúde e o “vegetarianismo” esotérico.

Quando o movimento começou a questionar-se de dentro, e desse questionamento nasceu o veganismo, a situação pouco ou nada mudou. Nas tentativas de abreviar o abismo com outras causas sociais, o movimento vegano novamente privilegia uma estratégia que diminui ou ignora a dimensão ética. Busca atrair os contestadores sociais por alegações quanto ao impacto ambiental da pecuária, a concentração de renda, a má distribuição de alimentos, a contribuição do vegetarianismo para eliminar a fome do mundo. Pouco se fala, entretanto, sobre a exploração animal e sua injustiça inerente, ou a associação entre a transformação do animal em recurso para comer, vestir, testar, e a transformação do ser humano em recurso para produzir, reproduzir, gerar lucro e riqueza, financiar o ócio de poucos pela exploração laboral de muitos.

Logo, embora sua percepção da extensão do problema tenha se expandido e se tornado mais clara e coerente, os vegetarianos, ainda hoje, estão envenenados por um século e meio de espiritualismo holístico, maquiavelismo mal-acabado e alienação política. Mudou o nome, mas os princípios, a estratégia e as circunstâncias permaneceram relativamente intocados.

O paradoxo

Daí resulta que ainda são, fundamentalmente, as mesmas pessoas, e pelos mesmos motivos, aqueles que antes se tornavam protovegetarianas e agora se tornam veganas: uma classe média “espiritualizada” que “descobre” o vegetarianismo pela compaixão e “amor” pelos animais, pelo moralismo social que comanda o ascetismo, o desapego, a moderação da libido e das paixões em geral, a abstenção de drogas (aqui incluídas o álcool e o tabaco), dentre outros preceitos de frugalidade. Sua concepção ascética de mundo e autoconhecimento se choca frontalmente com o propósito de perseguir a felicidade e dar sentido à vida por essas perigosas ferramentas que são a liberdade e o prazer individuais. Em poucas palavras: o vegetarianismo (e depois o veganismo) se reduziu a uma ideologia repressora e puritana, moralista, mas não ética.

E aqui entra o paradoxo. O que essas pessoas não percebem é que, ao associar o veganismo a inúmeras outras “condições” e “exigências” de conduta, na verdade estão prolongando o abismo que se propõem a abreviar. Não basta ser vegano: é preciso viver com parcimônia, não beber, não fumar, moderar o apetite, controlar a libido (se fizer voto de castidade, tanto melhor), desapegar-se dos bens e prazeres materiais, meditar, elevar seu espírito. Não admira que muitos comparem o veganismo com religião.

É uma lista tão extensa de predicados, para não dizer exaustiva, que apequena os dozes trabalhos de Hércules… E, o que é pior, tais predicados não são exatamente consensuais ou mandatórios para se levar uma vida “virtuosa”, independente do que digam os moralistas. Equipará-los a uma questão tão grave, que é a exploração e a violência praticada contra os animais, é antes um sinal de confusão de valores e prioridades [4].

Ao mesmo tempo, diluir o veganismo no meio de uma grande moral holística, vendendo um pacote completo, tirando os animais do centro do debate e limitando seu apelo àqueles que estejam predispostos a comprar tal pacote, gera desconfiança e resistência daqueles que, por um motivo ou outro, não se identificam com este pacote.

Neste último grupo, além dos contestadores sociais, pelos motivos já expostos, encontram-se os adeptos de diferentes religiões, como grande parte dos cristãos contemporâneos, católicos ou protestantes, em geral conservadores e muito menos predispostos a aceitar os preceitos espirituais por trás do vegetarianismo/veganismo holístico do que estavam no século XIX, já que até mesmo estes foram reduzidos a um mixórdia de estereótipos esotéricos.

O esoterismo como manifestação dessa espiritualidade holística, cuja influência entre vegetarianos e veganos parece inabalável, adere a práticas e crenças incompatibilizadas (e hostilizadas) pela maioria dos cristãos. No caso do catolicismo, esta é, historicamente, a religião mais antropocêntrica e hostil à ideia de direitos animais, e que passa por uma crise de valores, desde a segunda metade do século XX. Se num primeiro momento as autoridades católicas responderam a este desafio pelo esforço de modernizar sua doutrina – daí nascendo, por exemplo, as reformas litúrgicas, o catolicismo social e a teologia da libertação – desde a década de 1980, o foco mudou, e as lideranças buscam recuperar terreno pela reafirmação do dogma e modernização da estratégia – caso da renovação carismática com o recurso às formas de comunicação modernas (um exemplo seria a música “gospel”). No caso do protestantismo, temos as novas seitas pentecostais e outras tendências altamente conservadoras. Essas novas tendências no cristianismo inclinam-se a ver o vegetarianismo – não sem razão – como algo potencialmente subversivo. Inseri-lo numa grande cosmologia que inclui reencarnação, meditação, duendes e cristais não é propriamente uma forma de quebrar essas resistências.

Desse modo, o movimento vegetariano/vegano permanece alienado do mundo à sua volta, logo, extremamente limitado em sua capacidade de agir sobre ele. Pois a ação efetiva supõe o conhecimento. Mesmo os veganos éticos, não todos, mas muitos, tendem a adotar uma postura anti-intelectual, que se justifica pelo amor e compaixão pelos animais, sem necessidade de maior investigação ou fundamentação (pois de algum modo violam a “pureza” da sua opção de vida).

Ao fugir da indagação sobre as ramificações mais profundas da sua própria causa, os vegetarianos não ocultam a realidade apenas de seus interlocutores. Na mesma medida, cobrem a si mesmos com um véu de ignorância sobre as implicações éticas e políticas de ser vegetariano. Mais importante: alienam-se do próprio cerne da questão animal e, assim agindo, pouco ou nada contribuem para subverter a espiral de exploração, violência e injustiça que a cerca.

Síntese e conclusão

O veganismo não é uma causa isolada. Não é a associação do veganismo com outras causas que se questiona, e sim a forma e o conteúdo dessas associações. Ao tanto falar em compaixão e amor pelos animais, os veganos, talvez sem consciência do próprio erro, limitam sua causa a uma inclinação do caráter [5]. Aqueles “tocados” por esses sentimentos serão “despertos”, mas… e os outros? O veganismo torna-se uma epifania e é novamente reduzido a uma dimensão espiritual.

Assim entendido, remove-se do veganismo seu componente ético e político, da justiça, da observação não de um ato de caridade, mas de um imperativo de respeito. A caridade é conservadora: ela não muda a ordem, não transforma a realidade, não liberta. Apenas alivia, momentaneamente, a dor e o sofrimento. Não admira que o movimento, então, receba a alcunha de “proteção animal” ou “bem-estar animal”.

A justiça, por outro lado, é a pura defesa, preservação e restituição daquilo que já é inerente ao indivíduo – o que, no mundo contemporâneo, é uma tendência revolucionária. É, portanto, a observação de um dever, o respeito e defesa dos direitos que são próprios dos animais, como seres sencientes que são.

O veganismo é um movimento por justiça, e como tal ele certamente está ligado a outros movimentos emancipatórios, contra a discriminação, pelos direitos humanos, por justiça social, preservação ambiental. Não devemos descuidar dessa conexão. Porém, como qualquer outro movimento social, o movimento vegano deve ter um foco. Esses são os animais.

É chegada a hora do veganismo deixar de ser uma mitologia holística, espiritual e caritativa, para se transformar num genuíno movimento por justiça. É necessário fazer a transição definitiva, do vegetarianismo holístico para os direitos animais.

Notas

[1] O vegetarianismo holístico não necessariamente está restrito ao protovegetarianismo – embora, em muitos casos, sim. Por isso, optei pelo primeiro conceito. O fundamental, nesse caso, está na visão de mundo que o inspira.

[2] Diante dos escândalos que marcam os governos e parlamentos no Brasil, o termo “política” se tornou algo quase pornográfico, que ofende os pruridos morais da maioria das pessoas. Qualquer texto que fale em política é imediatamente visto com desconfiança e associado com a devassidão e degeneração moral. Longe de ser a esfera da manifestação da cidadania, ela se tornou a esfera do aviltamento da cidadania. Cabe, então, um esclarecimento. Nesse texto, usa-se o termo “política” num sentido amplo, que diz respeito à esfera pública, isto é, a arena de decisões que afeta os rumos da sociedade e a vida dos indivíduos. A política implica, portanto, a organização da sociedade; os princípios que a orientam, que variam de acordo com as inclinações políticas de cada um, mas lida com temas da justiça, equidade, liberdade, solidariedade, dentre outros; a participação do indivíduo nas decisões da esfera pública. Não tem nada a ver, necessariamente, com o governo, partidos ou política eleitoral, muito menos os desvios éticos e desmandos que predominam na política atual.

[3] Fonte: http://www.ivu.org/history/usa19/bronson-alcott.html

[4] Conheço bem os argumentos em favor dessa moral holística. Cigarros e bebidas são testados em animais. O alcoolismo destrói famílias. O viciado em drogas financia o tráfico e pode ser levado, pelo vício, a atitudes destrutivas e antissociais. A vida desregrada degrada o corpo e compromete a saúde do indivíduo. O hedonista, que persegue apenas o próprio prazer, sem se preocupar com os demais, provoca sofrimento alheio evitável e desnecessário. Esses comportamentos certamente geram dilemas morais. Não devemos em qualquer caso incentivar o abuso de substâncias tóxicas, alimentos industrializados, a busca egoísta do prazer. Estes são, porém, eventos contingenciais. Dependem das circunstâncias. Nem sempre é verdade, por exemplo, que cigarros e bebidas são testados em animais. O erro está na busca egoísta pelo prazer – em reduzirmos as pessoas a objetos, tratá-las como meios para nossos fins –, não na busca do prazer em si . É como equiparar sexo consentido a estupro, o que qualquer pessoa sã sabe que é absurdo: o problema não está no sexo, e sim na violação do consentimento. Não tratar as pessoas como objeto depende uma sólida formação ética – laica, não espiritual. E ao promover o respeito pelos animais, por si só, já estamos contribuindo para essa formação.

[5] Não se trata de dizer que seja errado sentir amor e compaixão pelos animais. O erro está em considerá-lo suficiente ou necessário para se tornar vegano, e usá-lo como ferramenta de argumentação.

* Texto baseado em apresentação no III Congresso Vegetariano Brasileiro, Porto Alegre, setembro de 2010.


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