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Sérgio Greif

Métodos alternativos

18 de dezembro de 2008 às 14:34

Por Sérgio Greif

Existem diversas interpretações relativas ao que sejam “métodos alternativos”. Na interpretação mais difundida, porém pouco fundamentada, métodos alternativos são aqueles que podem ser “alternados” com técnicas que utilizem animais. Dessa maneira, quando um processo diminui o número de animais utilizados, utiliza metodologia em que animais sofrem menos durante os procedimentos e consegue, em alguns casos, substituir o uso de animais, estão-se utilizando métodos alternativos. Sob essa ótica, há uma conexão imediata entre métodos alternativos e o conceitos dos 3 R´s (Reduzir, Refinar e Replace – substituir).

Em outra interpretação, métodos alternativos são todos aqueles que conseguem simular, mediante uso de algum recurso, a mesma situação que se encontraria se determinado procedimento fosse realizado em animais. Dessa maneira, reconhece-se que os resultados obtidos de animais são válidos e, por meio destes, tenta-se criar simulações onde se possa substituir o uso de animais ou, ao menos, diminuir seu uso. Nesse sentido, métodos alternativos são sinônimos de métodos substitutivos.

Em uma terceira interpretação, métodos alternativos não devem ser considerados substitutos da experimentação animal, pois, caso o fossem, os resultados produzidos seriam tão duvidosos e ineficientes quanto a própria experimentação animal. Nesse sentido, metodologias científicas não devem tentar simular resultados que seriam obtidos de animais experimentais, mas devem buscar obter resultados aplicáveis diretamente a pacientes reais, sejam eles seres humanos ou animais. Métodos alternativos nesse caso podem ser chamados metodologia científica.

As duas primeiras interpretações de métodos alternativos partem do pressuposto de que a experimentação animal é a metodologia científica padrão e aceita, sendo os métodos alternativos tentativas de substituir, ou ao menos reduzir, o número de animais em procedimentos. Todo método, para ser considerado aceitável por essas interpretações, deve passar por um processo de validação em que os resultados obtidos são comparados aos obtidos de animais.

A ironia desse processo de validação que considera a experimentação animal como método padrão é que jamais houve uma validação da própria experimentação animal, sendo que, portanto, os métodos alternativos precisam ser validados com base em um método não validado. Fosse a validação baseada no embasamento científico e na repetição do procedimento, bem como na comparação dos resultados com aqueles que seriam obtidos de pacientes reais, haveria real sentido em se falar em validação.

A terceira interpretação de métodos alternativos, porém, considera a experimentação animal como um método inaceitável e não científico, devendo ser rejeitado. Nesse caso, os procedimentos científicos na área médica devem visar à saúde da população, e não à produção científica pela produção científica.

Certamente, para um sistema que valoriza a produção de artigos científicos e a venda de medicamentos, a experimentação animal é importante, porque ela possibilita que essas atividades tenham lugar e se dêem com grande intensidade. No entanto, quando o propósito da ciência passa a ser o bem-estar da população, a experimentação animal torna-se matéria inútil.

E de que forma pesquisar ou ensinar ciência sem utilizar animais?

Os métodos disponíveis para se desenvolver pesquisa científica ou ensinar ciência sem uso de animais são bastante variados e não poderiam ser todos citados em um único lugar, mas, apenas para exemplificar, há possibilidade de se utilizar muitos recursos baseados em sistemas in vitro (pesquisa em tecidos isolados, células animais, vegetais ou microorganismos); podem-se utilizar, para alguns estudos, determinadas espécies de vegetais; para outros simulações computacionais, estudos clínicos em pacientes reais, estudos não invasivos em voluntários, estudos epidemiológicos, técnicas físico-químicas (espectrometria de massa, cromatografia, tomografia, etc.), estudos em cadáveres, utilização de manequins especialmente criados para determinados procedimentos, softwares educacionais, filmes, modelos matemáticos, nanotecnologia, estudo observacional de animais, entre outras.

Dependendo qual sejam os propósitos da pesquisa, um ou mais desses métodos se aplicam, combinando-se e complementando-se.

Dificilmente um único teste in vitro ou uma simulação computacional permitirão inferir que reações, por exemplo, determinada substância produzirá no ser humano, mas uma bateria de testes in vitro, baseada em um desenho experimental bem planejado e fazendo uso de uma variedade de linhagens celulares representativa, combinadas com outras técnicas, certamente fornecerá resultados aplicáveis e em um tempo bastante menor do que se fossem utilizados animais.

Assim, por exemplo, um determinado teste toxicológico cujo desenho experimental normalmente demanda a utilização de diferentes espécies animais pode, com sucesso, ser substituído por uma bateria de testes em células de diferentes linhagens e seguindo diferentes metodologias. Técnicas fisico-químicas podem ser aplicadas para identificar os diferentes componentes de uma droga e, dessa forma, refinar os testes. Modelos computacionais e matemáticos, bem como placentas obtidas junto a maternidades, podem auxiliar a compreender, por exemplo, de que forma a droga se distribuirá pelo organismo e como será sua absorção.

A escolha por determinado teste não deve ser aleatória. Cada fim pretendido demanda a adoção de uma ou mais técnicas, e mesmo dentro dessas técnicas há inúmeras possibilidades. A diferença básica é que, ao estudarmos seres humanos ou linhagens celulares específicas, utilizando técnicas voltadas para o entendimento da saúde humana, evitamos a má interpretação de resultados que podem advir quando da extrapolação de dados obtidos de animais de outras espécies.

Ainda, essas metodologias são mais éticas, e a médio e longo prazo são mais baratas; sua metodologia é menos grosseira, mais refinada; elas fornecem dados mais confiáveis, facilmente reprodutíveis e em menor espaço de tempo; sua aplicação não implica constrangimento a nenhuma parte, ou seja, pessoas que tenham considerações éticas, restrições religiosas e mesmo crianças podem acompanhar sua aplicação.

De fato, há muitas vantagens da aplicação dessas técnicas.

Apesar da dificuldade em se enumerar todos os métodos “alternativos” existentes, há algumas bases de dados que podem auxiliar nesse trabalho. As próprias bases de dados de publicações (MedLine, Web of Science, Biosis, AGRICOLA etc.) podem ser utilizadas como fonte, desde que os termos corretos sejam aplicados. Há ainda diferentes bases de dados voltadas especificamente para o tema de métodos alternativos, embora a maioria delas faça uso da interpretação de “alternativas” dentro do conceito dos 3 R’s. Desde que utilizadas de maneira criteriosa, porém, essas bases de dados são bastante úteis.

São algumas delas:

The Swedish Fund for Research Without Animal Experiments

http://www.stifud.se/english/

NORINA – A Norwegian Inventory of Alternatives

http://oslovet.veths.no/dokument.aspx?dokument=79

FRAME – Fund for the Replacement of Animals in Medical Experiments

www.frame.org.uk/

PCRM – Physician Committee for a Responsible Medicine

http://www.pcrm.org/resch/anexp/

ECVAM – European Centre for the Validation of Alternative Methods

http://ecvam.jrc.it/

Dr. Hadwen Trust – Alternatives to animal experiments

http://www.drhadwentrust.org/

NCA – The Netherlands Centre Alternatives to Animal Use

http://www.vet.uu.nl/nca/alternatives/alternatieven_database

ALTWEB

http://altweb.jhsph.edu/

InterNICHE

http://www.interniche.org

EURCA – European Resource Centre for Alternatives in Higher Education

http://www.eurca.org/resources.asp

AVAR – Association of Veterinarians for Animal Rights

http://www.avar.org/alted/

No entanto, o não retorno de resultados para determinada busca não significa que não exista ou que não possa vir a existir método para pesquisa de determinado tópico sem o uso de animais. Deve-se considerar que o volume e a variedade de linhas de pesquisa possíveis de serem desenvolvidas é muito grande, não havendo como uma só pessoa ou entidade familiarizar-se com toda a produção científica de determinada instituição, quanto mais elaborar métodos substitutivos para o uso de animais em todas elas.

O vivissector não pode utilizar a ainda não existência de recursos alternativos como desculpa para continuar utilizando animais. Da mesma forma que uma pesquisa antiética que só pode ser desenvolvida em seres humanos não é realizada até que se desenvolvam métodos éticos, assim o deve ser com relação à pesquisa com animais.

O desenvolvimento desses métodos deve partir do pressuposto de que animais não podem, por motivos científicos e éticos, ser utilizados como recursos. A experimentação animal não deve ser vista como possibilidade e, assim sendo, cabe ao pesquisador interessado no desenvolvimento de determinada linha de pesquisa desenvolver sua própria metodologia, caso ela ainda não exista.

Pessoas interessadas no fim da experimentação animal podem se envolver com o levantamento de métodos existentes e com o desenvolvimento de métodos alternativos ainda não existentes, mas de forma alguma isso tira a responsabilidade do pesquisador que utiliza animais. A responsabilidade pela busca de métodos alternativos não deve ser delegada a terceiros.

Deve-se considerar que a utilização de métodos alternativos sempre é possível e que a utilização de animais sempre é questionável. Os reais propósitos de cada pesquisa devem ser sempre levantados. A pesquisa visa ao bem da população ou trazer dividendos à indústria ou aos indivíduos envolvidos? A conquista fácil de títulos, publicações, patentes industriais e novos produtos no mercado justificam que se sustente a mentira da experimentação animal?

Se a pesquisa visa, realmente, ao bem-estar e à saúde do ser humano, então o uso de animais não é defensável pelo ponto de vista científico, podendo os objetivos ser atingidos de outras maneiras.

Sérgio Greif é biólogo, mestre e ativista pelos direitos animais. Formado pela UNICAMP em 1998, é co-autor do livro “A Verdadeira Face da Experimentação Animal” e autor de “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação”. Entre outros assuntos, Sérgio se interessa por bioética, gestão de sistemas de saúde e métodos substitutivos ao uso de animais na ciência e ensino.

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