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Direitos dos Grandes Primatas - Pedro A. Ynterian

Um natal surpreendente

10 de janeiro de 2013 às 18:20

Dr Pedro e Sara (Foto: Divulgação)

O dia 25 de dezembro passado foi um dia inusitado, para falar o mínimo, no Santuário do GAP em Sorocaba. Os funcionários solicitaram liberação às 10 da manhã para passar parte deste dia com suas famílias, na celebração humana do Natal. Geralmente, sempre fizemos uma escala de trabalho e reduzimos o plantel de funcionários. Nesta oportunidade a estratégia era: eles colocariam toda a comida, limpariam os dormitórios e deixariam tudo aberto até o dia seguinte, sem fazer o trabalho da tarde.

Às 10 horas da manhã eu era a única pessoa no perímetro do Santuário, não sendo habitual a minha presença, já que trabalho lá quatro dias de cada semana, e o dia 25 já era o quinto da mesma. Os chimpanzés não me esperavam por lá naquele dia, porém, eu deveria estar, para dar mamadeiras às bebês chimpanzés, principalmente.

Quando aproveitei o dia, sem tarefas específicas no Santuário, para visitar alguns recintos, fiquei surpreendido pela reação da maioria dos chimpanzés, especialmente os mais antigos e que sofrem de maiores perturbações. Todos me pediam ajuda, me pediam comida, apesar de já terem sido alimentados, e tentavam saber o que estava acontecendo. Aí percebi que eles se sentiam abandonados, já que nunca, a essa hora do dia, tanto silêncio e falta de atividade existiu lá.

Pongo, por exemplo, que é meio apático, subia na grade de refeitório e me pedia comida. Bob, que come pouco, me pedia mais de um iogurte específico que já lhe tinha dado.

Então, comecei a distribuir sucos, iogurtes, leite e gelatinas a todos eles, como uma demonstração de que eles não iriam morrer de fome, abandonados à sua sorte, pelos humanos que todos os dias os ajudam a sobreviver naquele cativeiro.

Quando comecei a distribuir os alimentos, a reação era de alegria e agradecimento. Quando cheguei no recinto de Peter e sua família (Peter, Tata e Judy, e dos filhos, Marcelino e Miguel) e comecei a colocar toda a comida nas bandejas, eles se abraçavam, como se eu fosse o salvador da vida deles. No caso específico desse grupo, que foi muito esfomeado em sua vida nos zoológicos, a comida é algo essencial, e a quantidade e variedade também. Eles vivem muito em função disso.

É interessante concluir destas reações inesperadas o que os chimpanzés no Santuário pensam de sua estadia naquele local, e como eles percebem a total dependência que têm de nós humanos. Se nós desaparecermos, como aconteceu no dia 25, a morte deles, para seu entendimento, seria iminente e certa.

No fim, no dia 25 de dezembro de 2012, eu tive que trabalhar bem mais do que o habitual, visto que, para meus hóspedes chimpanzés, eu era o único, e que minha presença e minhas ações garantiriam a sobrevivência de sua espécie.

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