ÚLTIMAS NOTÍCIAS:
  • Compartilhe

Texto

Samory Pereira Santos

O principio da igual consideração de interesses

09 de janeiro de 2016 às 9:00

A rejeição do especismo é o fundamento maior do veganismo. O veganismo é a expressão prática da rejeição desse tipo de preconceito. Mas, se você for a fundo, perceberá que na verdade a rejeição ao especismo é resultado de um outro raciocínio, que é comum a todos os principais autores de Ética animal.

Este raciocínio é o que eles chamam de princípio da igual consideração de interesses, e sua apreensão da forma correta pode evitar cair em armadilhas sem sentido (tanto para aqueles que criticam o veganismo sem saber direito o que é, bem como as pessoas que se dizem veganas e chegam a conclusões absurdas).

O princípio de igual consideração de interesses consiste na ideia de, ao avaliar os interesses dos membros da comunidade moral, o agente (no caso, você, leitor), não deve priorizar um interesse, a custas de outro idêntico. Isso significa que se A possui interesse em não receber um soco (ter sua integridade física protegida) e B também tem esse interesse, os interesses devem ser avaliados igualmente. Não é porque A é branco que o interesse dele em não receber um soco deve ser levado em consideração num patamar superior a B, por exemplo.

A implicação deste raciocínio, quando levado em consideração os animais, repercute na necessidade de se respeitar o interesse de determinados animais a viverem, pois eles têm interesse em viver, bem como os seres humanos têm (1).

Naturalmente, o princípio de igual consideração de interesses é alvo de críticas.

Uma, comum, seria que os vegetais e coisas inanimadas possuiriam interesse em continuar a viver ou funcionar. Todavia, ignora-se que para que se tenha interesse há de se ter um prejuízo para alguém (o detentor do interesse). Se não existe alguém cujo interesse esteja sendo desrespeitado, não há sentido de proteger esse interesse. O debate do que é “alguém” é tema para outra discussão, sobre os critérios de inclusão na comunidade moral.

Outra crítica recorrente é o suposto conflito de interesses. Exemplificando, a vaca tem interesse em estar viva, cuidar de seus filhos e ficar lá, fazendo coisas de vaca; o churrasqueiro tem o interesse em comer a vaca. Há, portanto, um conflito de interesses. Se todos os interesses possuem igual valor, não há como determinar quem deverá ceder.

Esse pensamento pode parecer fazer sentido, mas ele tem como base uma premissa falsa: de que todos os interesses possuem igual valor. O princípio de igual consideração dos interesses implica na necessidade de considerar interesses iguais igualmente, independentemente de quem seja o seu possuidor. Isso não significa que os interesses possuem igual valor. Existem interesses vitais (não ser morto) e triviais (comer maminha). Há violação a interesses que implicam no fim da existência de alguém (interesse em manter-se vivo) enquanto uns só causa um aborrecimento de leve (interesse em comer pudim).

Os veganos também pisam na bola, por desconhecerem o princípio e lerem o veganismo como um conjunto de regras estáticas.
Exemplo recorrente, que qualquer um que visitar um grupo de veganismo vai encontrar, é o boicote de imitações de produtos animais. Ao se consumir, por exemplo, uma imitação de queijo feito de vegetais, há a violação do interesse da vaca? Não. Qual é o sentido de se boicotar isso? Segundo os defensores do boicote de imitações, é porque simbolicamente mantem-se a ideia que esse gosto, de queijo, é aceitável; ou que mantem o processo do consumidor, simbolicamente, de exploração; ou mesmo que remete à exploração. Ou seja, simbolismo que não afeta o interesse de ninguém.

Outro exemplo, é a existência de pessoas que se reconhecem como veganas, mas perpetuam atitudes racistas, xenofóbicas, sexistas etc., e não veem incompatibilidade entre o veganismo e essas atitudes excludentes e opressoras. Elas veem o veganismo como uma questão que apenas importam aos animais não-humanos, excluindo, portanto, os animais humanos. Desta forma, elas sistematicamente desconsideram ou rebaixam o valor do interesse de outra pessoa, não os levando em consideração em pé de igualdade.

____________________________________

1. Obviamente, isso é uma super-simplificação da questão. Cada indivíduo tem seus interesses. Enquanto um ser humano não possui nenhum interesse em voar, aves têm – posto que é o meio de locomoção delas.

 

*Samory Pereira Santos é advogado, bacharel em Direito pela Universidade Federal da Bahia, especialista em Direito Constitucional e mestrando em Direito.

Fonte: Opiniãovegana

  • Compartilhe

  • Imprimir Imprimir
  • Comunicar Erro

Enviar para um amigo
Comunicar erro

eu apoio a anda

Suprema Mestra Ching Hai

SMCH+3

O prêmio de Compaixão Mundial foi concedido em reconhecimento às brilhantes conquistas da Agência em informar o mundo do

Suprema Mestra Ching Hai
Líder mundial humanitária

Líder mundial humanitária

Anderson Furlan

anderson furlan

Durante muito tempo estive preso em uma armadilha montada por séculos de tradição aristotélica e impulsionada pelos desv

Anderson Furlan
Juiz Federal, Mestre e Doutorando, Professor de Direito Ambiental

Juiz Federal, Mestre e Doutorando, Professor de Direito Ambiental

Veja todos os depoimentos »

Facebook
Você é o repórter
Siga a ANDA: