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Exploração

Chimpanzés sofrem com pesquisas médicas nos EUA

07 de novembro de 2011 às 10:35

A libertação de nossos irmãos primatas está próxima

 

Foto: Reprodução/ TV Folha

Resumo

Protagonista de estudos comportamentais e tido como “herói da hepatite” por seu papel na criação de vacinas, o chimpanzé está prestes a obter a proibição de seu uso como cobaia em pesquisas invasivas. Santuários em SP e nos EUA mostram desafios de sobrevivência do grande primata mais próximo ao homem.

A Impressão que se tem ao entrar nos laboratórios da Bioqual, empresa de pesquisa clínica em Rockville, Maryland (EUA), é a de que se trata de um hospital infantil. Na hora da faxina, não se vê muita coisa além de brinquedos espalhados pelo chão e, nas áreas de confinamento envidraçadas, folhas de papel com letras coloridas exibindo nomes de pacientes.

Os internos ali, porém, são 11 filhotes de chimpanzé usados como cobaias em estudos médicos. Há cerca de outros mil nas mesmas condições nos EUA, mas a espécie pode estar prestes a obter um direito universal que nenhum outro animal não humano tem: a “alforria” da vida de cobaia.

Os cientistas americanos estão entre os poucos que ainda podem usar procedimentos invasivos em pesquisas com chimpanzés. À exceção do Gabão, na África, os EUA são o único lugar do mundo onde macacos podem ser deliberadamente infectados com o vírus de hepatite C, por exemplo, para serem usados em testes de vacinas.

Três iniciativas em andamento -um projeto de lei no Congresso americano, uma reavaliação no sistema de financiamento federal e um pedido de mudança em decreto ambiental- têm potencial para inviabilizar qualquer pesquisa médica invasiva com chimpanzés.

Comoção

É fácil entender a a comoção pública. É perturbador visitar a Bioqual e ver Xavier, chimpanzé com menos de oito anos de idade, batendo os punhos nas paredes de sua jaula de vidro, pedindo atenção a um estranho. Clara, uma filhote um pouco menor, ficou emburrada num canto quando a reportagem visitou o local.

Já Tiffany, sua vizinha, pôs-se a se balançar numa corrente de plástico pendurada em seu cubículo, olhando para o intruso. Os três só devem deixar de ser cobaias quando, ao completarem nove anos, tornarem-se fortes demais e apresentarem risco para os pesquisadores.

A Bioqual não permite que jornalistas entrem em seus laboratórios com câmeras, para que cenas como essas não vazem na internet e “sejam exibidas fora de contexto”. Um dos cientistas da empresa, sob condição de anonimato, diz considerar legítimo o debate sobre o fim do uso experimental de chimpanzés. A proibição total das pesquisas, porém, não será uma escolha fácil.

Hepatite

Segundo estatísticas da OMS (Organização Mundial de Saúde), 3% da população mundial está infectada pela hepatite C. Todo ano, 350 mil pessoas morrem de complicações da doença, como a cirrose. E, a despeito de pesquisas que tentam usar cobaias menores (outros macacos, camundongos), o chimpanzé ainda é o único modelo experimental viável para o teste de vacinas contra o vírus.

Há outras pesquisas nas quais o chimpanzé ainda é considerado indispensável. Uma delas, menos conhecida, é a busca pela cura da infecção respiratória causada pelo RSV, vírus que mata a cada ano 66 mil crianças abaixo de cinco anos.

Diminuição

Justificável ou não, o uso do chimpanzé em laboratórios vem diminuindo. Os NIH (Institutos Nacionais de Saúde dos EUA) possuem hoje 620 chimpanzés. Boa parte foi criada por reprodução em cativeiro nos anos 1980, quando pesquisadores acreditavam que o animal seria útil na busca da vacina contra o vírus HIV.

Esses chimpanzés, hoje, estão espalhados em diversas instalações. A maior delas, o Centro de Pesquisas de New Iberia, na Louisiana, abriga 360 deles, que se revelaram um modelo experimental ruim para estudo da Aids: o HIV não os infecta da mesma forma como a nós. Hoje mantém muitos deles “aposentados” em santuários.

Como a lei americana proíbe a eutanásia de chimpanzés, os NIH têm de sustentá-los, custo acumulado que pode chegar a US$ 1 milhão por animal, caso viva 60 anos. Sem arranjar “emprego” para eles, há 15 anos os NIH impedem que se reproduzam. Agora, a instituição discute se é o caso de parar de financiar estudos invasivos.

“A comunidade de pesquisadores está desinformando o público sobre a utilidade dos chimpanzés para pesquisas biomédicas”, diz Kathleen Conlee, diretora da Sociedade Humanitária, ONG que pede a reclassificação do estado de conservação do macaco.

Nos EUA, a lei federal considera que animais em cativeiro são espécies diferentes das selvagens e por isso permite o uso experimental de chimpanzés, mesmo com a espécie correndo risco de extinção em seu habitat na África. Conlee convenceu o Serviço de Pesca e Natureza, o “Ibama americano”, a fazer um processo de revisão da norma, que pode ser revertida. A revisão também impediria o aluguel de chimpanzés para produção de filmes, zoológicos particulares e parques temáticos. Há cerca de mil deles nessa situação, calcula a ONG, além dos mil usados em pesquisas.

Proibição

Além da revisão proposta, um projeto de lei no Congresso americano, encampado pelo senador republicano Roscoe Bartlett, pede a proibição de pesquisas invasivas com chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos – as espécies de macaco mais próximas dos humanos. Cientista aposentado pela Nasa, Bartlett diz que age por remorso de ter embarcado animais em testes de voos espaciais na década de 1950.

Por exemplo, a fêmea de macaco-reso Able, pode ser vista empalhada no Museu Nacional de Aeronáutica e Espaço, em Washington, dentro do traje de plástico que a imobilizou para viajar de foguete. A espécie, evolutivamente mais distante de nós, é o primata mais usado como cobaia, situação que não seria afetada pela nova lei.

Santuário

Se a Bioqual, em Maryland, lembra um hospital pediátrico, o santuário do GAP (na sigla inglesa, “Projeto Grandes Macacos”) em Sorocaba (SP) são, à primeira vista, um misto de sanatório, orfanato e jardim da infância. Fundado em 2000 pelo microbiologista e empresário cubano Pedro Ynterian, que o mantém com recursos próprios, o GAP não revela seus custos de manutenção nem permite visitas, para não estressar os animais.

Com apoio de Jane Goodall – cientista que fez fama na década de 1960 ao mostrar semelhanças comportamentais entre humanos e chimpanzés-, o GAP tem a ambição de garantir direitos mínimos a grandes primatas. A argumentação de cientistas e filósofos como o britânico Richard Dawkins e o australiano Peter Singer é simples: criaturas com inteligência avançada, vida social intrincada e complexidade emocional merecem uma Declaração Universal de Direitos dos Grandes Primatas. São eles: o direito à vida, o direito a não ser molestado e, quando possível, o direito a viver em liberdade.

A última ressalva é importante, explica Ynterian, porque boa parte de seus mais de 50 chimpanzés jamais conseguirá ter uma vida social normal entre membros da própria espécie; nenhum deles desenvolverá os talentos necessários para sobreviver na natureza.
Nesse aspecto, o GAP é mais um “sanatório” do que um santuário. Ali, a maioria dos chimpanzés são ex-animais domésticos (que ficaram fortes demais e indomáveis) ou vêm de zoológicos precários e circos. As sequelas são físicas (dentes faltando, cicatrizes) e, principalmente, psicológicas. Sem o longo e obrigatório aprendizado social na natureza, as fêmeas são incapazes de cuidar de filhotes, e muitos machos são impotentes. Muitos chegam a se automutilar.

A esperança são os filhotes e adultos jovens, sete dos quais nascidos ali mesmo (Guga, 13, adotado por Ynterian ainda bebê, já foi pai três vezes; sua caçula, Suzy, de quatro meses, tem as fraldas descartáveis trocadas pela mesma babá humana que cuidou do pai dela). Menos traumatizados, eles brincam e correm pelos amplos recintos a céu aberto do santuário.

Em entrevista à Folha, Ynterian criticou a “hipocrisia” do governo americano ao permitir os experimentos com macacos nascidos em cativeiro. “E está mais do que provado que os chimpanzés são maus modelos para doenças humanas”, diz, citando o caso da Aids como exemplar. “É possível realizar pesquisas muito melhores com simulações computacionais ou cultivos de tecidos.”

Benefícios

Eugene Schiff, diretor do Centro de Pesquisa em Doenças Hepáticas da Universidade da Flórida, uma das instituições que mais usam dados de pesquisas invasivas com chimpanzés, discorda. Para ele, o dilema ético não se restringe a biólogos experimentais, mas a todos os que já se beneficiaram de drogas testadas em chimpanzés.

“Os chimpanzés foram claramente os heróis da hepatite”, afirma. “Eles são o único modelo animal experimental em que foi possível reproduzir hepatites A, B, D e E para testes de vacina. Talvez não seja impossível desenvolver uma vacina para hepatite C sem usar esses macacos, mas seria muito, muito mais difícil.”

A alternativa atual seria usar humanos em testes de segurança para vacinas e, depois, realizar testes clínicos em dezenas de milhares de pessoas para pôr o imunizante à prova. Isso, porém, tornaria a pesquisa excessivamente mais arriscada, burocrática e lenta, porque cientistas não podem inocular pessoas com o vírus da hepatite C. É preciso esperar que o azar dê sua contribuição à ciência.
Segundo Schiff, há hipocrisia no movimento que tenta isolar os EUA como único país do mundo a usar chimpanzés como cobaias. Segundo levantamento da revista “Nature”, nove países que proibiram pesquisas médicas com esses macacos ajudam a financiar estudos em território americano.

“Se um cientista submete hoje um projeto de pesquisa com chimpanzés, a primeira pergunta que recebe de volta do comitê de ética é: ‘Você não pode fazer isso com macacos-resos’?”, diz Frans de Waal, do Centro Yerkes de Pesquisa sobre Primatas, em Atlanta. O tipo de experimento que ele realiza num viveiro com 24 chimpanzés, porém, não funcionaria com qualquer outro animal.

“Chimpanzés têm um valor inestimável para estudos comportamentais”, diz, explicando que o Yerkes não faz mais procedimentos invasivos em chimpanzés. “Por serem a espécie evolutivamente mais próxima do homem, são usados como a pedra de toque para comparação com os humanos.”

Autor de livros sobre a espécie, como “Chimpanzee Politics”, De Waal trabalha no escritório da torre de observação do viveiro de chimpanzés em Yerkes. Ali, através da parede e do chão de acrílico, ele observa tudo o que os macacos fazem no tempo livre. À tarde, eles participam de experimentos de cognição e comportamento.

“Estamos interessados em entender, por exemplo, a evolução da moralidade”, explica. “Queremos saber se os chimpanzés possuem algum grau de empatia, altruísmo, e estudamos outros tipos de comportamento associados ao caráter humano, como a capacidade de transmissão cultural.”

Experimentos do primatólogo e observações na selva têm levado a crer que a resposta para essas perguntas é positiva. Se a ciência ajudou a elevar o status moral do chimpanzé ao de criatura semi-humana consciente, agora ela se vê sob a ameaça de ser impedida de usar o animal como cobaia.

Comportamento

O maior questionamento foca os procedimentos invasivos, mas alguns defensores da liberdade dos chimpanzés também criticam o tratamento dado a macacos em experimentos comportamentais.

O documentário “Project Nim”, recém-lançado nos EUA, retrata a falta de profissionalismo em torno dos experimentos com Nim Chimpsky, chimpanzé usado em experimentos de linguística na década de 1970 na Universidade Columbia (seu nome é uma brincadeira com o linguista Noam Chomsky).

Depois de anos de trabalho numa pesquisa feita com metodologia questionável, ele foi abandonado num santuário. Morreu deprimido, pois estava acostumado a viver com humanos. O mesmo acontece com vários animais do santuário de Sorocaba.

Pesquisadores de Yerkes temem que a experiência ruim com Nim leve autoridades a acharem que animais sofrem estresse em todos os centros de pesquisa. De Waal afirma, porém, que só macacos que gostam de participar dos experimentos são recrutados.
“E eles adoram”, diz Victoria Horner, cientista de Yerkes que é uma figura-chave nos estudos sobre cultura e altruísmo entre chimpanzés. Interagindo com eles por meio de uma tela de videogame e brinquedos de plástico inventados por ela mesma, Horner os submete a testes de habilidade cognitiva.

“É uma atividade estimulante para animais que vivem em cativeiro”, diz. “Se você lhes der a escolha, alguns vão preferir participar do experimento a ganhar uma banana grátis.”

A maioria dos cientistas aposta que, graças a Yerkes, uma instituição-modelo, o NIH vai decidir limitar apenas pesquisas invasivas. As pesquisas comportamentais, porém, ainda enfrentam outra questão: a moratória no financiamento à reprodução em cativeiro.

Quem visita a instituição em Atlanta tem uma amostra disso. A chimpanzé Tera, 15, gosta de cuspir água nos estranhos que passam por ali. É uma brincadeira considerada infantil, mesmo para uma macaca.

“Com essa idade, ela poderia até ser mãe, mas como é a mais jovem aqui, o grupo ainda a trata como bebê”, disse Horner, após salvar a reportagem da Folha de tomar uma esguichada. “Ela tem todo o tipo de comportamento que já deveria ter desaparecido aos quatro anos. Gosta de cutucar as mais velhas, pede para brincar…”

Já os mais velhos começam a apresentar sintomas de senilidade em Yerkes, problemas similares aos que teriam na selva. A fêmea Mae, 46, sofre de catarata e ficou parcialmente cega. Passa o tempo todo ao lado de sua filha Missy, 16, que lhe serve de guia.

Horner afirma que, em algum momento, o país terá de debater a retomada da reprodução em cativeiro. Para ter bons resultados em pesquisas comportamentais, é importante que os macacos tenham uma estrutura o mais semelhante possível à dos animais selvagens.

De Waal diz esperar que as autoridades federais que regulamentam e financiam pesquisa se convençam da importância de seus estudos. “Compartilhamos um ancestral recente com chimpanzés. Hoje há economistas, antropólogos, filósofos e outros intelectuais interessados em entender esses macacos, pois eles ajudam a compreender a natureza humana.”

Ynterian, o dono do santuário de Sorocaba, diz ser favorável aos experimentos comportamentais, “desde que sejam para aprender mais sobre eles, sobre a relação que eles têm conosco”. Ele diz que há bons motivos para que a reprodução seja permitida no santuário: preservar uma relíquia de algo que, para ele, está condenado a desaparecer na natureza.

“É só olhar para a situação da África hoje”, diz. “Não tenho esperança de que, entre tantos governos corruptos e guerras civis, os chimpanzés e outros grandes primatas possam sobreviver por lá.” Para Ynterian, só os indivíduos protegidos diretamente por humanos sobreviverão nas próximas décadas. “Serão animais humanizados. Vejo pelos que estão aqui, que comem a nossa comida e convivem conosco. Mas será ao menos uma lembrança do que existiu.”

Rebelião

Em agosto, enquanto os cinemas ficavam lotados com sessões de “Planeta dos Macacos: A Origem”, o Instituto de Medicina dos EUA realizou audiência em Washington, a pedido dos NIH, para debater o uso de chimpanzés em experimentos. Se no filme há uma rebelião de cobaias, no encontro os rebeldes eram biólogos de campo e ativistas de direitos animais.

A intervenção mais ilustre, projetada em um telão, foi a da bióloga Jane Goodall. Para ilustrar como a memória e a inteligência dos macacos os tornam sensíveis ao sofrimento psicológico, ela contou histórias como a de um chimpanzé que, após 16 anos de serviços prestados em laboratório, foi doado à sua base de pesquisa, na Tanzânia.

Libertado na selva, ele subiu numa árvore em que outro animal comia bananas. Irritado, o macaco local derrubou o intruso e se pôs a espancá-lo. Duas fêmeas chegaram e iniciaram um linchamento. Num galho mais alto, uma chimpanzé mais velha, de maior status no grupo, viu a cena e desceu para intimidar os linchadores. A ex-cobaia escapou com vida.

A fêmea, disse Goodall, era a mãe dele. Dezesseis anos após a separação, ela não o esquecera.

Fonte: Folha

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