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Guerra no Congo

Gorilas e humanos se abraçam para se protegerem de fogo cruzado

02 de agosto de 2012 às 6:00

Por Fatima Chuecco (Da Redação)

Foto: ONG GorillaCd

Onde e como estão as famílias de gorilas das montanhas da República Democrática do Congo diante da guerra civil que assola o país? Essa é a pergunta que os guardas florestais (também chamados de Hugos) e demais funcionários do Parque Nacional de Virunga se fazem todos os dias. Graças a uma negociação com rebeldes e governo congolês, a ONG Gorilla CD conseguiu um acordo para que os gorilas que vivem no parque não fossem atacados. Também ficou acordado que os guardas florestais possam voltar a trabalhar para localizar as famílias de gorilas e desmontar armadilhas.

No entanto, quem garante o cumprimento de um acordo sob intenso fogo cruzado, inclusive, com uso de mísseis e morteiros? Sabe-se que alguns soldados enfiados na floresta passam até cinco dias sem comer. Diante dessa cena dramática com fome, crianças feridas, gente mutilada e evacuação de vilas ao redor do parque dos gorilas será possível pensar em algum acordo?

Foto: ONG GorillaCd

Assim, a operação com 40 Hugos que deveria ter início na semana passada foi abortada. Motivo: a própria sede da ONG Gorilla CD sofreu ataque na última quarta-feira. Exército e rebeldes invadiram o espaço que virou uma arena sangrenta durante 20 mintos, conforme contou o diretor do parque Emmanuel de Merode, também presente no local. Abraçados, humanos e gorilas passaram 20 minutos de puro horror.“Tivemos que nos proteger, junto com os gorilas orfãos, atrás de sacos de areia, mas felizmente nenhum de nós se feriu. Quatro soldados do exército e um rebelde morreram”, conta.

O Dia Seguinte

Depois do ataque os rebeldes se refugiaram novamente na floresta. A sede da ONG, que já tinha se tornado um pronto-socorro improvisado para os moradores locais feridos, ficou devastada. E ninguém sai ou entra porque há conflito por toda parte. Mas é impressionante a determinação desse grupo de ambientalistas e guardas florestais. No final de semana um pequeno grupo encarou a missão de encontrar os gorilas, contá-los e checar sua saúde. Eles chegaram ao posto de patrulha de Bukima, que também sofreu danos, mas nada muito catastrófico, segundo Emmanuel.

O grupo conversou com membros da comunidade local para saber se tinham visto gorilas ou recebido alguma informação sobre mortes. Não havia nenhuma notícia ruim. E nenhum gorila, vivo ou morto, foi avistado. “É um incentivo, ainda que muito preliminar. É sinal de esperança apesar de ver a área devastada por um bombardeio incessante nos últimos dois meses. Muitas pessoas inocentes foram mortas e mutiladas. E, ainda assim, todos com os quais conversamos se mostraram sorridentes e acolhedores. Essa é a maneira como as coisas estão no Congo”, contou o diretor do parque.

Foto: ONG GorillaCd

A proposta é de que a partir de hoje, mais 20 guardas se unam aos 25 que já se locomoveram para Bukima. Eles tentarão encontrar as seis famílias de gorilas que monitoram e que possuem alguns bebês. Os Hugos farão o possível para ficar com eles e assegurar que sejam adequadamente protegidos durante esses tempos difíceis. Embora os gorilas, provavelmente, tenham se refugiado para o alto da Montanha de Virunga, há possibilidade de alguns indivíduos terem se ferido ou morrido nos conflitos. Já houve duas mortes de gorilas em conflito armado: Dungutse em 2008 e Rugendo em 2001. Ambos resolveram se atracar com soldados do exército para proteger suas famílias e foram baleados.

Christian Shamavu com bebê órfão (Foto: ONG GorillaCd)

Existe também uma preocupação grande com os bebês que podem não suportar as baixas temperaturas da montanha. Em geral, os gorilas passam pouco tempo nos pontos mais altos, mas com a guerra podem tentar ficar mais tempo e assim perder seus membros mais jovens. E isso é muito trágico, pois, assim como nós, a gestação de um gorila leva nove meses e, geralmente, só nasce um bebê. É raro nascerem gêmeos. Por isso, cada bebê morto é um grande prejuízo para todo o projeto de preservação da espécie. Além disso, as gorilas só iniciam sua vida sexual depois dos nove ou dez anos de idade quando partem para outros grupos. Gorilas não se reporduzem com membros da mesma família. Não há relações incestuosas ou entre pais e filhos.

Quem são os heróis dessa guerra?

Emmanuel de Merode (Foto: ONG GorillaCd)

Os guardas florestais têm arriscado a vida com equipamento e armas muito inferiores aos dos grupos rebeldes e exército. Vários já perderam a vida ou tiveram suas famílias aniquiladas tentando defender os gorilas. Ganham pouco e, quando há conflitos como o do momento, sequer recebem o salário. Para esses homens, os gorilas passaram a fazer parte da família. Especialmente os funcionários que cuidam dos órfãos, dizem que jamais se separariam deles mesmo sob pesada artilharia.

Emmanuel de Merode observa gorila (Foto: ONG GorillaCd)

À frente desse exército de soldados determinados e movidos por puro amor aos gorilas, está o diretor do parque, Emmanuel de Merode, um dos únicos homens brancos entre os congoleses envolvidos com o trabalho de proteção da espécie. Emmanuel é membro da realeza da Bélgica. Ele tem título legítimo de príncipe, mas trocou a vida de nobreza pela defesa dos gorilas das montanhas e está sempre nos pontos mais perigosos, atuando pessoalmente em cada estratégia de conservação. Como é piloto de avião, também ajuda no transporte aéreo e se encarrega das negociações entre os dois lados da guerra para que os gorilas não sofram as consequências.

Laurent Nkunda (Foto: ONG GorillaCd)

No comando dos rebeldes está Laurent Nkunda, envolvido com a guerra que anos atrás já assolou o país. Ele quer o governo, mas como não consegue lutar pelo poder de forma legítima por ser acusado de crime de guerra, investe numa açãoarmada contra as forças do governo. Nkunda já se permitiu filmar para um documentário sobre os gorilas das montanhas e garantiu: “Soldado nenhum meu coloca a mão nos gorilas. Se depender de mim ninguém mata gorila no Congo”. Isso pode ser sincero ou estratégico. Quem sabe?

A guerra atual não tem motivação étnica. É uma briga pelo poder num país que se encontra entre os mais pobres e violentos do mundo, mas que também guarda riquezas cujo valor é difícil de mensurar como jazidas de diamantes onde, inclusive, empresários chineses já chegaram e começam a explorar. O povo congolês é ao mesmo tempo pobre e rico porque não tem acesso as suas fontes de riqueza. Os gorilas das montanhas são outro tesouro do país já que a espécie só vive em outros dois lugares, em Ruanda e Uganda. Ao todo são apenas 700 em todo o mundo.

Sede vira pronto socorro (Foto: ONG GorillaCd)

A única maneira de ajudar os gorilas das montanhas é apoiar os Hugos ou guardas florestais que estão exatamente na linha de frente. A ONG Gorilla CD arrecada contribuições financeiras por meio de transferências de cartões de crédito aceitos no mundo todo. No site www.gorillacd.org tem todas as explicações para quem quiser contribuir e também mantém um blog abastecido diariamente pelos próprios Hugos e pelo diretor do parque contando como está a situação.

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